Nosso Caminho

"Queiramos ou não, todos nós que nascemos sós, mesmo sendo gêmeos, teremos em nossa caminhada a grande surpresa prevista de um dia ficarmos sós antes do fim nesta terra. Nós que somos casados e temos um companheiro ou uma companheira precisamos nos lembrar dos sós, viúvos viúvas, separados ou separadas e dos que nunca encontraram sua cara metade. É uma lei inexorável que se não morremos antes de nossa cara metade, ficaremos sós.
O grupo das viuvas fundado pelo Pe. Caffarel no tempo da guerra e no Brasil ampliado para todo tipo de só, por D. Nancy Moncau deve ser para nos uma ante-sala praseirosa no nosso caminho."

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A DESCOBERTA DO CRISTO












            AGRADECIMENTO:  As Comunidades Nossa Senhora da Esperança,         através da sua Equipe Dirigente Nacional, agradecem a Equipe da Super      Região Brasil, das Equipes de Nossa Senhora, por ter autorizado a adaptar esse rico Tema de Estudos para as Viúvas, Viúvos e Pessoas Sós,  seu   púbico         alvo em  todo o Brasil.

São Paulo, Março de 2007


EQUIPE DIRIGEMTE NACIONAL DAS
CNSE.













I N D I C E

            Apresentação do Tema . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   05
            Capítulo I
                        A procura de Alguém que dê sentido a vida . . . . . . . . . . . . . . . . .      06
                        Texto de Meditação para a Reunião  . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . .        09
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias  . . . . . . . . . . . . . . . . . .       09
                        Leitura Complementar – 2ª. Parte  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .         10
            Capítulo II
                        A Paz e a Justiça para o Universo inteiro . . . . . . . . . . . . . . . . . .         13
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          16
                        Questões para reflexão Troca de Idéias  . . . . . .. . .. . . . . . . . . .           16
                        Leitura Complementar – 2ª Parte  . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .           16
            Capítulo III
                       
                        O Alcance Universal da Fé  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          19
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          21
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias    . . . . . . . . . . . . . . . .         21
                        Leitura Complementar – 2ª parte    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          22
            Capítulo IV
                        A Vocação pessoal: meu nome está nos céus  . . . . . . . . . . . . . .       27
                        Texto de Meditação para a Reunião    . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .        28
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias   . . . . . . . . . . . . . . . . . .      28
                        Leitura Complementar – 2ª parte                . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .        29
            Capítulo V
                        Consciência da Vocação   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .         31
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .        33
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias   . . . . . . . . . . . . . . . . .        34
                        Leitura Complementar – 2ª parte    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..         34
            Capítulo VI
                        A Viúva, o Viúvo e as Pessoas Sós acolhidas no Projeto
                        de Deus    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .    37
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          39
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias   . . . . . . . . . . . . . . . .          40
                        Leitura Complementar – 2ª parte  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            40
            Capítulo VII
                        Acolher o outro para acolher o Senhor    . . . . . . . . . . . . . . . . . .          42
                        Texto de Meditação para a Reunião     . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            45
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias . . . . .. . . . . . . . . . . .           45
                        Leitura Complementar – 2ª Parte    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            45
            Capítulo VIII – Parte I
                        Quem dizem que eu sou? Tu és o Cristo, o filho de Deus . . . . .      49
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          53
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias   . . . . . . . . .. . . . . . . .         53
                        Leitura Complementar – 2ª parte  . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . .           53
            Capítulo IX – Parte II
                        O que dizem os que não conhecem Cristo?  . . . . . . . . . . . . . . .         56
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .          57
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias  . . . . . . . . . . . . . . . . .         58
                        Leitura Complementar  - 2ª parte     . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . .          58
            Capítulo X
                        Jesus e outros Credos Religiosos  . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . .         62
                        Texto de Meditação para a Reunião   . . . . . . . . . . . . . . . ..  . . . . .        64
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias   . . . . . . . . .. . . . . . . . .       65
                        Leitura Complementar – 2ª parte   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .         65
            Capítulo XI
                        Para nós, quem é Jesus?  . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .            68
                        Texto de Meditação para a Reunião    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .         72
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias  . . . . . . . . . . . . . . . . . .       73
                        Leitura Complementar – 2ª parte  . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .         73
            Capítulo XII
                        João Batista: para uns Elias, para outros um Profeta   . . . . . . . . .    77
                        Texto de Meditação para a Reunião  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .       81
                        Questões para reflexão e Troca de Idéias   . . . . . . . .. . .... . . . . . .      82
                        Leitura Complementar – 2ª parte   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   82




APRESENTAÇÃO DO TEMA DE ESTUDOS


Caríssimos irmãos e irmãs das CNSE

Nas páginas do Evangelho (Mc 8,27) vamos encontrar uma pergunta muito instigante que Jesus faz aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Os discípulos, atordoados, não sabem o que responder ao Mestre. Então Jesus torna-se mais direto ainda: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Esta pergunta, feita há mais de 2000 anos, não se perdeu no tempo, não se tornou arcaica. Ela é atual, viva e pertinente para todos os homens e mulheres de fé, ontem, hoje e sempre.
A resposta pessoal deve ser sondada no âmago de cada um e não pode ficar no âmbito intelectual ou retórico. Não basta saber de cor: “Tu és os Messias”. Não basta conhecer a origem e a divindade de Jesus. Quando Ele se dirige a nós e nos pergunta, lá no mais íntimo do nosso ser, “E vós, quem dizeis que eu sou?”, a nossa resposta sincera exige a conversão da nossa vida e o firme propósito de querer segui-Lo como Caminho, Verdade e Vida.       Esta tomada de consciência fortalecerá  - de modo formidável -  o nosso crescimento na Fé.
Através deste tema, adaptado à nossa condição de viúvas, viúvos e pessoas sós, e, sobretudo, da condição de cristãos comprometidos com os ensinamentos do Mestre, as CNSE querem auxiliar seus membros, propondo-lhes este tema para um esforço de reflexão e oração, a fim de que possam dar mais sentido às suas vidas e consistência à sua fé.
Conhecendo-nos melhor teremos consciência mais clara do quem sou eu; do porque estamos aqui; do para onde vamos. Então teremos a possibilidade de, com lucidez, ouvirmos a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” e responder com a força da nossa Fé e convicção “Senhor, tu és o Cristo, o filho de Deus vivo, que veio ensinar-nos o caminho da Salvação. Senhor, tu és o meu pastor. Nada me pode faltar.   
                        Que o Espírito Santo de Deus os ilumine nessa caminhada.

Equipe Dirigente Nacional das CNSE.
CAPÍTULO  I
PRIMEIRA PARTE

 A PROCURA DE ALGUÉM QUE DÊ SENTIDO À VIDA

O ser humano, ao longo de sua existência, prossegue na busca do sentido profundo da sua vida. Na história da humanidade, diferentes culturas propuseram teorias e projetos que podiam das respostas satisfatórias. A mais verdadeira das respostas é, porém, aquela que todo homem deve ele mesmo procurar: uma busca longa e profunda que leva ao encontro de toda criatura com o seu Criador.                
Buscar o sentido da vida
Todo ser humano procura o sentido da sua vida. Por que viver? Essa é a pergunta que cedo ou tarde fazemos. Uma pergunta que se impõe em todas as etapas importantes de nossa vida e frente a todas as escolas que nos comprometem, uma pergunta que nos estimula e provoca constantemente.           
O que procura a maioria de nós? O que cada um de nós deseja? Sem dúvida, procuramos todos, de alguma forma, a felicidade e a paz; principalmente num mundo marcado pelas contradições, pelos conflitos, pelas injustiças e pela desordem, a impressão de estarmos desorientados nos leva a desejar um refúgio onde buscar e encontrar um pouco de paz. No entanto, nessa procura desvairada, acabamos por passar de uma experiência a outra, de uma situação a outra, de um “mestre” a outro, sem nunca atingirmos a nossa meta. Verdadeiramente, toda vida tem o seu sentido e cada um deve trabalhar sobre si mesmo, e sobre a sua vida, para buscar e encontrar as respostas.
Algumas pessoas fazem coisas muito simples, outras, coisas muito complexas; o que importa é não confundir o sentido com a utilidade, com o sucesso ou o êxito na perseguição dos nossos objetivos; porque o sentido e o valor das coisas e dos atos que fazem parte de nossa vida residem naquilo que eles revelam do nosso espírito e no significado que nos trazem e trazem à nossa vida. Assim, os cuidados diários de uma mãe por seus filhos não são menos importantes que a atividade de um chefe do Estado a serviço de seu povo.
Em nossa busca por um sentido, arriscamos, por vezes, tirar o sentido das coisas que o têm. Também corremos o risco de inventar ou atribuir sentido a coisas que não o têm. Reside aí uma tensão contínua. Se, por nossa cultura, nossa economia ou nossa prática política criarmos as condições de uma vida sem sentido, não poderemos nos queixar de que a nossa vida não tem sentido, nem procurar noutro lugar, na Igreja, na política, no trabalho, no sucesso, na felicidade, no prazer, a resposta à questão essencial que nos interpela no mais profundo de nós mesmos.
Procurar as respostas
Todo ser humano procura respostas fundamentais à pergunta sobre a razão de viver, porque “... à diferença dos animais, para os quais o futuro está no seu passado, no sentido em que ele é determinado pela natureza, o homem, ser livre e senhor de seu destino, não é determinado pelo passado; é capaz de projetar o que ele deve ser, do ideal e do tipo de homem que quer realizar. É isso que sempre fez na história. As diferentes civilizações que se sucederam – a civilização grega, a romana, a cristã medieval, a civilização moderna – (...) todas tiveram um ‘projeto de humanidade’, e podemos dizer o mesmo da civilização atual. Mas há uma diferença: enquanto as civilizações do passado, homogêneas no seu essencial, propunham um projeto único de humanidade, a civilização moderna e contemporânea, essencialmente pluralista do ponto de vista ideológico e cultural, apresenta ao contrário projetos numerosos e diversos, aos quais correspondem projetos de futuro diferentes e opostos. Dentre esses projetos, os principais parecem-nos ser os três seguintes: projeto tecnológico, projeto consumista e o projeto libertário.
a) o projeto tecnológico
"É o projeto de um homem e de um mundo rigorosamente submetido à racionalidade científica, no qual nada é deixado ao acaso, à imaginação ou ao humor do momento, mas no qual tudo é determinado e previsto pelo computador, para evitar erros e desperdícios econômicos, desordem social e sofrimentos (...). Esse projeto tem confiança absoluta na ciência – que acredita poder resolver todos os grandes problemas colocados pelo desenvolvimento industrial atual – e, principalmente, na razão humana.”

b) o projeto consumista
“Vemos aqui no homem um ser que tem ‘necessidades’ sempre novas e crescentes. E por isso propõe-se satisfazê-las pela produção e pelo consumo de bens materiais, em quantidade cada vez maior e qualidade cada vez melhor. O ideal a que tende esse projeto é a criação da sociedade do bem-estar, da sociedade do ‘ter’, na qual todo homem deve poder satisfazer todas as suas necessidades, tanto as necessidades primárias como aquelas que são criadas artificialmente”.
c) o projeto libertário
“O homem é aqui considerado como um ser com ‘desejos’, desejos esses reprimidos pela sociedade com suas leis, pela moral com seus ‘tabus’ e pela religião com os seus preceitos. Propõe-se libertar o homem de toda ‘lei opressiva’ e de toda moral ‘repressiva’, para permitir-lhe gozar de seu direito à felicidade e, principalmente, de seu direito de ser livre de toda forma de opressão e alienação. Nessa perspectiva, visa-se à criação de uma sociedade livre, isto é, onde cada um é livre para satisfazer os seus ‘desejos’ da forma que melhor lhe convier.
Esses ‘projetos de humanidade’ estão presentes na cultura atual e têm uma grande influência sobre os nossos contemporâneos. A idéia subjacente de ‘libertação’ lhes dá um atrativo particular. O homem de hoje aspira a ser livre de todo condicionamento e de toda forma de coação, quer seja de ordem social e econômica, quer de ordem moral e religiosa, livre do sofrimento, livre das necessidades, livre do medo. Esses diversos projetos de humanidade apresentam-se precisamente como libertadores. Mas será que realmente o são? Ou, em vez de libertar o homem, ameaçam reforçar as antigas servidões e criar outras novas? (Raffaele Sacco, in L’Osservatore Romano, maio 2003).
De uma maneira ou de outra estamos presos a um desses três projetos de civilização, ao mesmo tempo em que acolhemos os valores propostos em cada um deles e, provavelmente, mais por um dos que pelos outros. No fundo, não nos sentimos realizados e isso nos leva a uma outra realidade, que talvez muitos de nós vivemos: o sentimento de estar desorientado, de viver no provisório ou na precariedade em relação a qualquer ideologia ou qualquer projeto. Tudo, em torno de nós, parece tão destituído de fundamento e de significado que somos levados a procurar na evasão a resposta à nossa inquietude, ou então a nos interrogar cada vez mais profundamente sobre o sentido a dar à nossa vida. Isso pode desembocar numa atitude negativa que nos leva a viver resignados e impotentes, mas também pode nos dar a oportunidade de retomar os dons de nossa inteligência e de nossa liberdade para escolher caminhos que nos pareçam mais autênticos para a nossa vida.
Não se trata então de escolher uma forma de ser homem segundo um ou outro dos projetos (tecnológico, consumista ou libertário), mas sim de compreender o verdadeiro sentido do que é uma pessoa e de querer ser pessoa.
Trata-se simplesmente de um “projeto de humanidade” cujo objetivo é que todo ser humano se torne realmente uma pessoa. Mas tal projeto será possível? Não será necessária uma vida inteira para realizá-lo plenamente?
Texto de Meditação para a Reunião: Jo 4, 6-15
            Fatigado da caminhada, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta da hora    sexta. Uma mulher samaritana chega para buscar água. Jesus lhe diz: “Dá-me             de beber!”  Seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimento. Diz-lhe então         a samaritana: “Como, sendo judeu, tu me pedes de beber, a mim, que sou        samaritana?” (Pois os judeus não se dão com os samaritanos). Jesus lhe             respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: ‘Dá-me de          beber’, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva!” Ela lhe disse: “Senhor,           nem sequer tens uma vasilha e o poço é profundo: de onde, pois, tirar esta água         viva? És, porventura, maior que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do            qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus animais?” Jesus lhe      respondeu: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber         da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der       tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”.Disse-lhe a            mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem         tenha de vir mais aqui para tirá-la”. Palavra da Salvação.
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo

De um ponto de vista simplesmente humano, sem referir-se explicitamente à fé que, por vezes, também pode mascarar as nossas ansiedades e os nossos temores, procuremos responder, como viúvas, viúvos e pessoas sós, com sinceridade:
Será que eu também sinto, será que nós sentimos, esse sentimento de inquietude e de perturbação que faz com que nos perguntemos, no mais profundo de nós mesmos: que sentido tem nossa vida? Por que viver?
v  Que respostas encontramos em nós mesmos? Com que ajuda e de quem?
v  A quem e a que coisas dou valor em minha vida diária? Como dou testemunho dessa escolha de valores? Afinal, quem sou eu? O que espero de mim mesmo?
v  Que valores escolhi viver em família, entre os que convivem comigo e que ações confirmam nossa escolha?
v  Quais os obstáculos, em nós mesmos e em torno de nós, que tornam mais difícil a nossa caminhada?

SEGUNDA PARTE:  Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
Os textos seguintes revelam, cada um à sua maneira, a necessidade profunda da pessoa encontrar o sentido de sua vida no meio do mundo e no projeto de civilização em que está implicado.
            1 - Marianella Garcia Villas, da República do Salvador, advogada, deputada no           Parlamento e depois presidente da Comissão dos Direitos Humanos do           Salvador, assinada em 13 de março de 1983, durante a guerra civil do seu país:
O sentido de minha vida é ser um pequeno elemento na vida de meu povo; minha história não é senão uma parte da história do povo inteiro, eu sou uma mulher comum. Mas no Salvador as pessoas comuns não estão ao abrigo, estão sem defesa; no Salvador, as pessoas comuns morrem, são muitas vezes encarceradas, fazem-nas desaparecer, são assassinadas. No Salvador, mas também no mundo inteiro, os pobres, que são as pessoas mais comuns, não morrem de velhice, mas sim de pobreza.
            2 - Luigi Pintor, homem político italiano, leigo, e que diz não crer:
Nada de mais importante numa vida inteira do que se inclinar para que um outro, agarrando-se ao teu pescoço, possa levantar-se. (L. Pintor, Servabo, 1992).
            3 - Don Carlo Molari, teólogo, Conselheiro Espiritual de uma equipe:
Há muitos sinais que mostram que é possível orientar positivamente o itinerário humano. É preciso reconhecê-los, cultivá-los e difundi-los, para que a esperança possa ser fundada.
O primeiro sinal de esperança é a sede de interioridade e a busca da espiritualidade. A busca espiritual intensifica-se atualmente. A procura apaixonada de humanidade provém do fato de que o homem é realmente chamado à felicidade, ao bem-estar, ao domínio sobre as coisas. Esse apelo tem necessariamente efeitos na esperança instintiva que leva o homem a encontrar na vida a maior alegria possível. Isso exige, porém, (...) o abandono definitivo da lógica da acumulação. É uma etapa que não se pode vencer sem redescobrir a riqueza interior das pessoas. Daí a necessidade de uma vigorosa retomada da interioridade. (...)
Somente uma forte interioridade pode ajudar a perseverar na luta contra a corrente. Para o homem atual, o problema crucial é saber se existe uma resposta absoluta e definitiva às expectativas históricas do homem, ou se, pelo contrário, é possível viver contentando-se com respostas parciais, provisórias, em constante tensão. Alguns não conseguem suportar essa situação e desmorona. Outros se refugiam no fundamentalismo, que não passa de nostalgia dos momentos fortes de sua história. Outros avançam porque continuam a guardar motivações ilusórias; outros ainda porque encontraram Deus e vivem a esperança teologal. São formas diferentes de praticar a esperança, vivendo a dinâmica da vida espiritual de maneira mais ou menos perfeita. (C. Molari, Un passo al giorno, 1985).
            4 - Trecho da carta de Terezinha, para Maria Célia, ambas viúvas. Elas se      conheceram em Porto Alegre, onde viveram por muito tempo, acompanhando         seus maridos doentes, que aguardavam a possibilidade de fazerem um    transplante pulmonar.
... Sinto saudade daquele tempo, que apesar de todos os apertos, preocupações e incertezas, foi uma dádiva do céu.
Hoje vejo, perfeitamente, a força de Deus nos ajudando, nos encorajando... Ele, na sua infinita bondade, nos deu a graça de permanecermos junto de nossos maridos – somente nós e mais ninguém – para que pudéssemos desfrutar do nosso convívio tão intensamente! Talvez, quem sabe, Ele, na sua infinita sabedoria, tenha achado que deveríamos passar por tudo aquilo para que hoje tivéssemos tantas lembranças inesquecíveis daquela convivência a dois. Tivemos a chance de, em tempo integral, estar em contínua disponibilidade, proporcionando aos nossos maridos segurança, dedicação e o conforto que nos era possível oferecer...
Como São Paulo, podemos dizer: “Combati o bom combate, guardei a fé”.
Mas nesse combate não estávamos sozinhas. Nesta luta, uns companheiros amparavam os outros e Alguém, muito maior, amparava a todos nós.
            5 -  Padre Henri Caffarel
Não duvido que o gosto do absoluto seja uma fome de Deus inscrita em todo homem. Essa fome é a própria definição do homem: é a substância humana que é esfomeada, que é por si mesma fome de Deus. Eis porque eu lhe dizia e repito: o verdadeiro problema não se encontra entre você e seu marido, mas entre você e Deus. Encontre Deus, entregue-se a Ele, e a sua vida será transformada... (H. Caffarel, Aux Carrefours de l’Amour, pp. 26-27).













Capítulo II
PRIMEIRA PARTE

  A PAZ E A JUSTIÇA PARA O UNIVERSO INTEIRO
Procuramos todos a paz, mas demasiadas vezes não vivemos a paz. Talvez nos enganemos de paz: queremos uma paz calma e tranqüila, enquanto a verdadeira paz é o fruto de um constante empenho para conquistá-la.
Jesus, nosso Mestre, deu-nos a sua paz: uma paz verdadeira que não deve e não quer ignorar os valores da justiça e do perdão.               
A paz
“Procura a paz e segue-a” (SI 34,15). A palavra Shalom, do texto original hebraico, significa a paz como plenitude, bem-estar, prosperidade, integridade, o que vai no sentido de uma natureza humana não desfigurada, nem violentada, nem oprimida, mas inteiramente reconciliada. É a realização total do “sonho” de Deus, do Deus da vida, para quem a paz e a vida são inseparáveis. Essa paz não nasce por si mesma; é preciso procurá-la, descobri-la, conhecê-la, persegui-la. E persegui-la não significa atingi-la ou obtê-la, mas tentar atingi-la ou obtê-la. O empenho em procurar a paz “aqui e agora” deve ser constante: os que vivem na expectativa do Reino esperam e anunciam a sua paz; fazem-se os servidores e os construtores da paz; oferecem e acolhem a paz. Contudo, a paz nunca será definitiva: cada passo para a frente e cada sucesso não passarão de sementinhas, de modestos tijolos, de sinais. A história, tanto pessoas como coletiva, procede e avança ao preço de contínuas fraturas e recomposições; nunca é estática, mas sim dinâmica: e é por isso que a paz à qual um dia se chegou nunca poderá ser estável, nem definitiva.
Associamos habitualmente a palavra paz com algo estático: descansa-se em paz e não se combate em paz; senta-se em paz, mas n ao se toma parte em uma reunião em paz. Considera-se a paz como uma ausência de conflito, enquanto para nós, cristãos, a paz é um dom do Espírito e não um estado estático de descanso ou relaxamento, é algo mais comprometedor. A paz é uma conquista, um esforço, um empenho, um desafio contínuo, enquanto o conflito permanece um elemento inevitável da vida que precisamos viver de maneira construtiva e positiva. Jesus nos deixa a sua paz e exorta os homens a conquistar a paz: a vinda de Cristo na terá é uma mensagem para os homens de boa vontade, para os pastores, para os mais humildes; a ressurreição de Cristo traz aos apóstolos assustados a paz, e lhes dá, com a paz, a energia necessária para anunciar a Boa Nova. Bem-aventurados serão os que promovem a paz!
Antigamente, em nossas igrejas, nada soava melhor aos nossos ouvidos do que ouvir falar de paz: para ultrapassar o limite entre a guerra e a paz, parecia-nos bastar um pequeno esforço de boa vontade. As coisas se complicaram quando prestamos atenção ao que nos lembrava Isaías: “A paz é o fruto da justiça” (cf. Is 32, 15-20).
A justiça
A partir do momento em que se começou a apresentar a paz em companhia da justiça, o discurso sobre a paz não se tornou mais desestabilizante, mas nos fez compreender muitas coisas:
v  Nunca haverá paz enquanto os bens terrestres permanecerem injustamente distribuídos;
v  A guerra não é unicamente o troar dos canhões ou o explodir da bomba atômica ou de substâncias químicas, mas também a existência de certos sistemas econômicos violentos, mesmo quando suportados em resignado silêncio;
v  Absurdo não é somente o fato de haver no mundo ricos e pobres, mas que os ricos se tornem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres;
v  A linha divisória entre a paz e a guerra não está entre o Leste e o Oeste, mas sim entre o Norte e o Sul, entre os povos ricos e o Terceiro Mundo, imerso em dívidas e à beira do abismo.
Sem dúvida, cada um de nós, nas mil formas de violência pública ou privada que se desenvolvem a cada dia, considera-se cúmplice da guerra e nela atiça os focos.
“Se não temos a coragem de dizer que, se não devemos vender armas, também não as devemos produzir, que a política dos blocos é injusta, que o perdão das dívidas do Terceiro Mundo não é senão um adiantamento em relação a tudo o que devemos aos dois terços da humanidade, que a lógica do desarmamento unilateral também não deixa de ter relação com a do Evangelho, que a não-violência ativa é um critério da prática cristã, que algumas formas de objeção de consciência são o sinal de um maior amor pela cidade terrestre... se não tivermos a coragem de dizer tudo isso, permaneceremos cotos de vela esfumaçados e não tochas de Páscoa.” (Don Tonino Bello, Bispo).
A justiça vai de par com a paz e com ela mantém uma relação constante e dinâmica. A justiça e a paz tendem para o bem de cada um e de todos, e por isso nos pedem a ordem e a verdade. Quando uma delas está ameaçada, ambas vacilam; quando a justiça é ferida, a paz também está arruinada. O ardente apelo de João Paulo II ressoa fortemente em nossos corações: “Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.”
Se a paz é um dom que recebemos junto com o perdão, ela é obrigatória e, principalmente, fruto da justiça, porque a justiça elimina as causas dos conflitos e torna os homens livres para se expressar. Sem justiça, nunca será possível falar em paz. Enquanto os bens terrestres estiverem tão iniquamente repartidos, enquanto os ricos se tornarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, a paz da qual falamos não passará de pálida sombra da verdadeira paz de Cristo.
É preciso lutar contra a corrente de violência difundida pela mídia e, ao mesmo tempo, estimular em nossos filhos, e em todos os que nos cercam, uma consciência crítica diante dos antivalores que ela apresenta.
A paz e a justiça em indissolúvel unidade
“Amor e fidelidade se encontram, justiça e paz se abraçam”: este versículo do Salmo 85 (84) associa à paz e à justiça dois conceitos importantes para o casamento: o amor e a fidelidade. Essa simples frase nos faz compreender que a justiça é parte integrante da conquista da paz. Em toda comunidade cristã, a começar pela família e chegando até às relações internacionais, a ausência de justiça torna impossível a serenidade nas relações e uma igual dignidade; a desconfiança se instala; os abusos e a discórdia, os conflitos e a guerra tornam-se inevitáveis, conseqüência previsível e, em alguns casos, procurada, para continuar a alimentar um sistema profundamente injusto. Não se pode dizer ao irmão “a paz esteja contigo”, se lhe falta o necessário.
“A paz na terra, profunda aspiração dos homens em todos os tempos...” assim começa a encíclica “Pacem in Terris” de João XXIII. Hoje em dia são numerosos os seres humanos que fazem parte desses homens de boas vontade que, independentemente de fé ou raça, combatem juntos por um mundo mais justo e pacífico, a começar pelas realidades do casas e da família até chegar às nações e aos povos.
            “Se queres a paz no mundo, deves obter a paz em teu país,
            se queres a paz em teu país, deves obter a paz nas cidades,
            se queres a paz nas cidades, deves obter a paz nas famílias,
            se queres a paz nas famílias, deves obter a paz em ti mesmo”.
Texto de Meditação para a Reunião:  Jo 14, 21-29
“Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei.” (...) “Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou. Estas coisas vos tenho dito estando entre vós. Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse. Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou: não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Vós ouvistes o que vos disse: Vou e retorno a vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis por eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que eu. Eu vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis.” Palavra da Salvação.
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
            Tomando como base sua condição de Viúva, Viúvo ou Pessoa Só e o meio      onde você está inserido, procuremos refletir juntas/os:
v  Como gerimos nossos conflitos e nossas desavenças no meio em que vivemos? E na família?
v  Somos capazes de pedir perdão e de aceitar o perdão que nos vem de outro?
v  Que caminhos utilizamos para a educação aos valores da solidariedade e da justiça?
v  Como procuramos reagir, em nossa vida diária, ao desequilíbrio das riquezas no mundo que nos cerca?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé

            1 - Li Tien Min:
Pouco importa quem és: homem ou mulher, operário ou camponês, soldado, estudante ou comerciante; pouco importa o teu credo político ou religioso; se te perguntarem qual é a coisa mais importante para a humanidade, responde: antes, depois e sempre, a paz!
2 - Baden Powell
No que diz respeito ao mais vasto problema da paz mundial, parece-me que antes de conseguir suprimir as armas, antes de poder fazer promessas nos tratados, antes de construir palácios onde possam reunir-se os delegados para a paz, a primeira etapa consiste em acostumar as jovens gerações de todos os países a se deixarem guiar em todas as coisas por um sentido absoluto de justiça. Se os homens tivessem feito desse sentido de justiça um instinto que orientasse sua conduta em todos os problemas da vida, a ponto de examiná-los imparcialmente dos dois pontos de vista opostos antes de adotar um deles, então, ao surgir uma crise entre dois países, estariam mais espontaneamente prontos para reconhecer o que é justo e adotar uma solução pacífica, o que é impossível enquanto o seu espírito estiver habituado a considerar a guerra como a única solução.
3 - Toninho Bello, Bispo
A Bíblia evoca freqüentemente o abraço da paz e da justiça de maneira similar ao abraço de uma mãe em seu filho, ou do abraço de dois amantes. A paz é fruto da justiça, diz Isaías em magnífica passagem (...); compreende-se facilmente que haja dificuldade, para muitas pessoas “religiosas tradicionais”, em aceitar esta descoberta, bastante recente, do liame existente na Bíblia, entre paz e justiça.
4 - Martin Luther King
“Nunca teremos paz nesta terra enquanto em toda parte os homens não perceberem que o fim nunca pode ser separado dos meios, porque os meios representam o ideal em potencial, enquanto o fim representa o ideal em ato; e não se pode atingir um fim bom com maus meios, da mesma forma que não podemos obter uma árvore boa a partir de sementes ruins. É curioso observar-se que todos os grandes gênios militares do mundo falaram da paz. Os antigos conquistadores que matavam para estabelecer a paz, Alexandre, Júlio César, Carlos Magno, Napoleão, todos desejavam em palavras uma ordem pacífica. Se lerem atentamente “Mein Kampf”, descobrirão que Hitler afirmava com insistência que tudo aquilo que fazia na Alemanha tinha por único objetivo estabelecer a paz. E a eloqüência dos que hoje dirigem o mundo é maravilhosa quando tratam da paz: todas as vezes que largamos bombas no Viet-Nam do Norte, o Presidente Johnson fala de paz. Onde está o problema? Todas essas pessoas falam da paz como de um objetivo longínquo, como de um fim que alcançaremos algum dia; sabemos, entretanto, que será logo preciso considerar a paz não somente como um objetivo, mas como o meio pelo qual poderemos alcançar o próprio objetivo. Precisamos chegar aos fins pacíficos”.












                                  

           


CAPITULO III
PRIMEIRA PARTE
O ALCANCE UNIVERSAL DA FÉ
Nossa fé está fundada no Amor e o Amor verdadeiro só é possível quando endereçado a todos os homens de todos os tempos, de todas as culturas, de todas as religiões. O nosso zelo de pessoas que crêem nos leva, por vezes erroneamente, a reservar o nosso amor apenas aos nossos irmãos de fé, quando o Senhor nos disse claramente que veio para a salvação de todos.
Devemos, pois, viver a nossa fé num espírito aberto ao universal, ser capazes de ampliar o nosso horizonte e reconhecer os valores da alteridade, isto é, daquele que é diferente e ver em qualquer “outro” o rosto de Cristo.
O valor da alteridade, fundamento do ecumenismo
O século do qual acabamos de sair é aquele no qual vimos aflorar, primeiro timidamente, e depois manifestar-se uma presença inevitável da alteridade, do “estrangeiro”, no próprio coração das diversas comunidades da sociedade; é o século no qual se afirmou a necessidade inelutável do diálogo. Depois de séculos em que o “diferente” era compreendido de maneira negativa, ou pelo menos mantido à distância, os últimos decênios nos ensinaram que, longe de contentar-nos em tolerar a diversidade, deveríamos partilhá-la, aceitando o mistério do outro, mesmo quando ele nos parece ser um enigma. Com efeito, em todo “estrangeiro” há um enigma que aguarda ser interpretado para tornar-se mistério e lição de vida: o diálogo é o espaço vital para todos aqueles que descobriram, nos respeito das diversas identidades, a sua plena “solidariedade” na pertença à única família humana. É pois preciso nos acostumarmos a considerar o outro e a alteridade como uma fonte de comunhão, e não como um pretexto de exclusão. Podemos falar de verdade quando aceitamos difundi-la ou propagá-la pela violência ou quando ela é animada pelo desprezo que desconsidera o ser diferente? “A verdade separada do amor não é Deus, mas torna-se um ídolo que não devemos amar nem adorar”, escrevia Pascal. O Novo Testamento nos ensina que devemos manifestar a verdade na caridade, e isso quer dizer começar por  uma prática cordial da alteridade que nos leva a aceitar o ritmo dos outros. E isso vale também do ponto de vista religioso. Com efeito, a Verdade não é uma posse ciosamente preservada que  podemos manter de forma exclusiva, ou, pior, que podemos  transformar numa arma contra os outros. Muito pelo contrário, a Verdade é uma pessoa que nos possui: o cristão pertence ao seu Senhor, porque está imerso em sua morte e ressurreição.
A unidade da fé oposta à divisão das fiéis
Durante os últimos decênios, os cristãos começaram a considerar insustentáveis as divisões que, por muito tempo, marcaram a sua história. Divisões essas que geraram ódios, dilaceramentos, guerras, contradizendo ao apelo de Jesus para serem “um”. Cada vez mais numerosos os cristãos convictos da necessidade de fazer tudo para recompor a unidade da fé e a aceitar a diversidade das maneiras de crer no único Senhor. Principalmente, a unidade, tão procurada nesse período fecundo para o ecumenismo, não é contra alguém; ela não deve significar uniformidade, mas sim unidade pluralista, na qual as Igrejas, verdadeiras irmãs, se reconhecem mutuamente e  colocam-se a serviço umas das outras. Para os cristãos, estar em comunhão tampouco é uma estratégia ou a procura de um poder necessário para opor-se aos “outros”, aos não cristãos, que se tornaram, de fato, maioria ou uma força agressiva. Se os cristãos estão unidos é porque seguir o Senhor Jesus significa viver o mandamento do amor mútuo, colocar-se a serviço dos outros, principalmente dos mais pobres e mais fracos, renovar constantemente o perdão e, portanto, as iniciativas de reconciliação. Contudo, não é só isso: percebemos aos poucos, nos últimos decênios, que as nossas cidades se tornam cada vez mais “pluralistas”, devido à presença compósita e multiforme de etnias, culturas e religiões que questionam profundamente a nossa identidade e a nossa tranqüilidade. “Dar razão da esperança que está em nós” (1 Pd 3, 15) torna-se uma exigência quase diária, que devemos traduzir em atitudes concretas de escuta e de acolhimento, evitando cultivar a nostalgia de épocas em que o nosso mundo era automaticamente cristão, e manifestar ressentimentos estéreis que alimentam lógicas de hostilidade.
Somos promotores de divisão?
É preciso cuidado, pois as divisões situam-se freqüentemente em nós mesmos. Não somente entre os teólogos, as igrejas e as religiões, mas também em nossos corações. Por vezes, corremos o risco, mesmo em nome da fé, de sermos, nós também, promotores de divisão, com nossa insensibilidade e incompreensão. Ora, muito pelo contrário, somos chamados a viver em nossa época com confiança, certos de que Deus não nos abandona. Desde sempre, Deus escolheu o rosto do “outro” – seja qual for a sua situação religiosa – para tornar-se  presente na história humana, ainda que de forma inédita e misteriosa. Na pessoa de Jesus, nosso Deus  nos chama e nos incita a sermos, a cada dia, testemunhas de reconciliação, para reduzir as grandes fraturas do mundo, da vida quotidiana, dos nossos ambientes: as fraturas que separam os homens das mulheres, as etnias entre si, os grupos dos outros grupos, as que me separam dos outros, a minha família das outras famílias, os cristãos dos outros cristãos, os cristãos dos judeus, os cristãos dos muçulmanos. Encontramos constantemente em nosso caminho essas fraturas: em nossa casa e em nosso ambiente de trabalho; somos chamados a reduzi-las pelo amor, que não aguça as diferenças, mas sabe aceitá-las e valorizá-las. A paz não é nada mais do que “a convivialidade nas diferenças”. Numa época “pluralista”, em meio a homens diferentes e fés religiosas diferentes, devemos, como cristãos, fazer esforços de escuta autêntica, de acolhida benevolente, de auxílio prestado gratuitamente e com desapego. Nisso seremos reconhecidos como os cristãos dos primeiros séculos, e esta será a nossa maneira de anunciar Jesus Cristo.
Texto de meditação para a Reunião: Jo 17, 6-11
Antes de passar deste mundo ao Pai, Jesus orava assim: “Eram teus, e mos deste, e eles guardaram a tua palavra. Agora reconheceram que tudo quanto me deste vem de ti, porque as palavras que me deste eu lhas dei, e eles as acolheram e reconheceram verdadeiramente que saí de ti e creram que me enviaste. Por eles eu rogo: não rogo pelo mundo, mas pelos que me deste, porque são teus e tudo o que é meu é teu, e neles sou glorificado. Já não estou no mundo; mas eles permanecem no mundo e eu volto a ti. Pai santo, guarda-os em teu Nome – este Nome que me deste! – para que sejam um como nós.” Palavra da Salvação:
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
O contato com a diferença é uma experiência diária que nem sempre é refletida e reconstruída. Na nossa situação especial de vida, tentemos nos perguntar:
v  As diferenças de fé religiosa permanecem um problema grave para o mundo cristão. Cristãos, judeus e mulçumanos, católicos e ortodoxos: qual o caminho falta percorrer para um verdadeiro diálogo religioso e um autêntico esforço ecumênico. Na minha opinião, estamos na boa direção?
v  Onde vivemos, encontramos freqüentemente pessoas que não crêem ou que praticamente não crêem. Qual a minha atitude em relação a elas? Presunção e superioridade, ou respeito e diálogo?
v  Sendo cristãos, consideramos evidentes as nossas boas disposições em relação aos outros. A realidade à nossa volta é freqüentemente outra. Tenho tido a experiência de contatos diretos com a diferença, por exemplo, com uma pessoa de outra cultura? Como me comportei então?
v  O mundo de hoje parece não ter mais fronteiras, mas talvez os limites mais fortes e mais duros que nos abatem são os dos nossos corações, de nossas idéias, de nossas atitudes e condutas. Que será necessário fazer para viver um verdadeiro espírito ecumênico?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
            1 - Enzo Bianchi, fundador da comunidade monástica de Bose:
Não obstante as aparências, no povo de Deus os cristãos percebem cada vez mais profundamente como uma “característica” cristã e vivem como um objetivo o encontro com outro cristão, considerado não mais como um herético ou um cismático, mas como um irmão que caminha ao nosso lado rumo à unidade, desejada pelo Senhor, e não procurada em virtude de conveniências estratégicas orquestradas pelas Igrejas. Matta el Meskin, o grande monge copta contemporâneo, lembra-nos que quanto mais fiéis ao Evangelho forem os cristãos, mais facilmente se encontrarão e alcançarão a unidade e a comunhão: e eles o conseguirão, justamente, na união com o seu Senhor, guiados pelo Espírito na prática diária do Evangelho.
2 - Irmão Roger, da Comunidade Ecumênica de Taizé: (1)
Conversa do Irmão Roger com o diretor da revista “Evangelizzare” de Bolonha.
Indispensáveis. Se, porém, após tantos anos de pesquisa, não se consegue atingir o objetivo, surge o cansaço e a credibilidade se perde. Onde reencontrar o ímpeto da vocação ecumênica? Vem-me então à mente a luz projetada pelo Papa João Paulo II em sua primeira encíclica, “Redemptor Hominis”. Nela o Papa esclarece uma realidade evangélica essencial, que permite compreender a catolicidade trazida por Cristo. João Paulo II escreve: “Cristo de alguma maneira uniu-se ele mesmo com cada um dos  homens”. O homem não está unido a Cristo sem a sua resposta pessoal, mas Cristo, pelo contrário, está misteriosamente unido a toda criatura humana. Mediante esta reflexão, o Papa abre um caminho para a reconciliação. Cristo é comunhão. Não veio criar uma nova religião, mas permitir que se realize uma comunhão em Sua pessoa, a comunhão única que é a Igreja. E penso também nas palavras tão evangélicas pronunciadas pelo Papa João XXIII em janeiro de 1959. Falando do  Concílio prestes a começar, disse o Papa: “Não faremos processo histórico algum. Não procuraremos saber quem errou ou quem teve razão. Diremos somente: reconciliemo-nos!” Para a vocação ecumênica, seja qual fora nossa fragilidade, uma das exigências mais imediatas é trazer a reconciliação onde existem fraturas, antigas ou bem recentes. Algumas referências históricas, a recordação de acontecimentos graves do passado podem bastar para provocar oposições, por vezes ódio. A memória das humilhações e das feridas pode ser transmitida de uma geração a outra. E nunca o diremos o suficiente: sem perdão, a pessoa humana não tem futuro.
3 - Carta ecumênica nº.  3 (2001)
            Irmos rumo aos outros.
No espírito do Evangelho, devemos rever juntos a história das Igrejas cristãs, marcada por numerosas experiências positivas, mas também por divisões, hostilidades e mesmo conflitos armados. Erros humanos, a falta de amor e o requente mau uso da fé e das Igrejas a serviço de interesses políticos deterioraram seriamente a credibilidade do testemunho cristão. O ecumenismo começa, então, para cristãos e cristãs, pela renovação dos corações e a disponibilidade à penitência e à conversão. O movimento ecumênico já fez progredir a reconciliação. É importante reconhecer os dons espirituais das diferentes tradições cristãs, aprender de uns e outros, e assim receber os dons uns dos outros. Para o desenvolvimento futuro do ecumenismo é particularmente necessário levar em conta as experiências e os anseios dos jovens e encorajar a sua participação de acordo com os meios de que dispõem.
4 - Dietrich Bonhoeffer: (2)
Uma experiência de excepcional valor é ter finalmente aprendido a olhar partir de baixo os grandes acontecimentos da história universal, do ponto de vista dos excluídos, dos maltratados, dos fracos, dos oprimidos e das vítimas do escárnio, em uma palavra, os que sofrem. É uma sorte para cada um de nós se, nestes tempos em que vivemos, a amargura e o rancor não corromperam nosso coração; se, portanto, olharmos com olhar novo as grandes e pequenas coisas, a felicidade e a infelicidade, a força e a fraqueza; se nossa  capacidade de perceber a grandeza, a humanidade, o direito e a misericórdia tornar-se mais livre, mais incorruptível; se, ainda, o sofrimento pessoal tornar-se uma boa chave, um princípio fecundo para compreender o mundo na contemplação e na ação: tudo isso será uma sorte para nós. Tudo reside em nossas respostas às necessidades da vida em todas as suas dimensões; e em nossa aceitação da vida para uma satisfação mais elevada cujos fundamentos não estão de fato nem embaixo, nem em cima.








CAPÍTULO  IV
PIMEIRA PARTE
A VOCAÇÃO PESSOAL: “MEU NOME ESTÁ NOS CÉUS!”
O Senhor nos pergunta: “E vós,.quem dizeis que eu sou?” Não podemos responder de forma consciente e engajada se não seguirmos o caminho que nos leva à maturidade pessoal, se não nos perguntarmos: “Quem sou eu? O que procuro? O que quero?” Para construir a nossa personalidade é preciso uma vida toda, pois é somente ao seu término que teremos plenamente realizado o projeto de Deus para cada um de nós. Só então poderemos reconhecer o nosso nome inscrito nos céus desde o primeiro dia da Criação.
Construir a nossa identidade
Quem sou eu? Será que me conheço verdadeiramente no meu âmago mais fundo? Essa é a pergunta que nos fazemos pelos caminhos de nossa vida, particularmente nas horas em que os acontecimentos e as circunstâncias põem as nossas reações, o nosso comportamento e a nossa própria identidade à dura prova, quando os nossos projetos e anelos encontram obstáculos ou malogros. 
Trata-se de velha pergunta que sempre reaparece no caminho de todos os homens. Num templo da Grécia antiga estava escrito: “Conhece-te a ti mesmo”, apelo oficial para prosseguir na via mais difícil, a de compreender a própria identidade, o próprio nome.
O tempo que passa renova esta pergunta por ocasião das nossas experiências mais determinantes, porque o que somos nunca foi fixado de modo definitivo. Os acontecimentos, os encontros significativos, as alegrias e os sofrimentos contribuem para construir a nossa identidade ao longo do tempo.
Com efeito, ao nascermos não passamos de uma promessa a realizar, de uma realidade que é um vir-a-ser. Na primeira infância, recebemos os dons do acolhimento e do afeto dos que estão perto de nós, a começar pelos nossos pais: as carícias, o calor, a alimentação, a resposta solícita às nossas necessidades primárias são fundamentais para estabelecer as primeiras bases de nossa identidade. Esse processo não pára com o fim da primeira infância, mas continua durante a adolescência, a juventude e a vida toda, até o seu fim: precisamos sempre de amor para encontrar o nosso equilíbrio.
Em todos os momentos de nossa vida, a nossa maturidade e, portanto, a nossa identidade, provém de alguma forma do apoio, do amor, das experiências de encontros positivos, do dom que os outros representam para nós. Portanto, a pergunta “quem sou eu?” nunca recebe uma resposta definitiva, porque somos seres de relação, que amadurecem a cada dia.
Cabe-nos somente acolhera o dom do amor e da vida que constantemente recebemos dos outros, por meio de experiências significativas e encontros que contribuem, aos poucos, para desenhar os traços de nossa identidade.
O Senhor da história nos ampara e constantemente nos dá vida pelo amor e pelo dom representado pelos que nos amam. Deus está sempre presente em nossa vida pela atenção e pelo bem que nos transmite por intermédio das pessoas que nos acolhem, nos perdoam, nos amparam, nos escutam. “Deus, ninguém o viu”: é somente pelos homens e pelas mulheres capazes de nos transmitir o bem que Ele inspira, que Deus se nos torna presente e constrói a nossa vida e a nossa identidade ao longo dos anos.
Receber o seu nome
A maior das tentações consiste em não querer receber: é o individualismo, que pretende determinar, em plena autonomia, o seu destino, declarando orgulhosamente que não precisa de ninguém para viver. Essa tentação é forte e nos leva freqüentemente a emitir juízos a nosso próprio respeito, que consideramos definitivos, e que excluem os outros de nosso horizonte. “É assim que eu sou, não mudarei as minhas convicções nem minhas atitudes”. É a recusa da novidade trazida pelos encontros; fechamo-nos diante do que poderiam modificar em nós as palavras e os gestos de amor que chegam até nós; aí estaria o maior dano à nossa personalidade. A recusa de me deixar servir pelo outro, do serviço prestado por alguém que me ama, do que poderia me mudar e me  levar a novos caminhos. Isso nos lembra as palavras de Pedro a Jesus no episódio do lava-pés: “Jamais me lavarás os pés!”, e a resposta de Jesus: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (cf Jo 1,8).
Seremos felizes quando nos sentirmos profundamente gratos pelos dons que Deus nos fez por intermédio daqueles que nos amam e quando soubermos que não estamos na origem do que temos de bom, porque tudo nos foi dado: as nossas qualidades, a ternura que se exprime em nós, o nível de gratuidade que pomos em nossas ações, tudo isso são graças que Deus deixa penetrar em nós, por meio daqueles que, pelo amor que têm por nós, nos ensinaram a amar.
Não podemos, porém, considerar como nosso tesouro e nossa propriedade os dons recebidos; somos chamados a nos tornar, nós mesmos, dons para os outros, como os outros foram e são para nós.
Para nós, tudo é dom
A criação de nossa personalidade não terminou com o nosso nascimento; nessa hora, ela apenas começou a caminhar rumo à promessa de uma maturação plena e autêntica. A meta é conseguir um dia, no final de nossa vida, definir a nossa identidade. Nesse itinerário de crescimento para a plena realização do nosso destino, Deus continua, ao longo da história, a tornar-se para nós dom pelos acontecimentos. Para nós, Ele se faz carícia pelas mãos daqueles que nos amam, nos abraçam, nos amparam, nos escutam, nos convidam, pela voz e pelos gestos dos que estão próximos de nós, a ter constantemente confiança na vida.
Se recebermos e oferecermos os dons do amor e da vida na estrada da nossa maturidade, vivendo o amor e afastando de nossa perspectiva tudo aquilo que não é útil e bloqueia o caminho do encontro com Deus, receberemos, por fim, a identidade à qual fomos chamados desde o início.
O nome de “filho de Deus” é a identidade à qual todo homem é chamado. Essa identidade será a nossa intimidade com Deus, uma relação de amor exclusiva e única para cada um.
“Ao vencedor eu darei (...) uma pedrinha branca, uma pedrinha na qual está escrito um nome novo, que ninguém conhece, exceto aquele que o recebe” (Ap 2, 17).
O caminho da maturidade humana à procura de identidade pode então ser uma aventura entusiasmante, na qual nos é pedido principalmente que nos deixemos amar, que acolhamos o dom dos outros que transmite o dom de Deus, ou melhor, que transmite Deus como dom. Seremos o templo do Deus vivo se tentarmos nos entregar, comunicar os nossos sentimentos, nossas angústias e nossas alegrias àqueles que nos são próximos, se nos esforçarmos em ser para os outros, por nossa vez, seremos consoladores, artífices de paz, de justiça e de misericórdia. “Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jô 14, 23).
Texto de Meditação para a Reunião: Mt 6, 25-34
Quando subiu no monte, Jesus disse: “Não vos preocupeis com a vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa? Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis vós mais do que elas? Quem, dentre vós, com as suas preocupações, pode prolongar, por pouco que seja, a duração de sua vida? E com a roupa, por que andais preocupados? Aprendei dos lírios do campo, como crescem, e não trabalham e nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em todo o seu esplendor, se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que existe hoje e amanhã será lançada ao forno, não fará ele muito mais por vós, homens fracos na fé? Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou, que iremos beber? Ou, que iremos vestir? De fato, são os gentios que estão à procura de tudo isso: o vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal.” – Palavra da Salvação:
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
Reflitamos, no nosso estado de vida, sobre a nossa caminhada pessoal, a fim de apontar, em primeiro lugar, os dons que recebemos daqueles que em nossa vida foram presença cheia de sentido e perguntemo-nos quais as mudanças mais importantes pelas quais lhes somos reconhecidos:
v  Rememoro as pessoas, os encontros significativos que contaram em minha vida. O que me trouxeram? Que riquezas me deixaram? O que mudaram em mim?
v  Do que me sinto agradecida/o?
v  Quais são hoje os dons e as realidades positivas que descubro em mim mesmo?
v  Estarei eu consciente de que os dons que recebi dos outros estão agora disponíveis em mim?
v  Relembrando os nossos primeiros encontros nas C.N.S.E., o que mudou na maneira de acolhermos um ao outro?
v  Considerando a nossa caminhada interior, quais os hábitos, os comportamentos, os temores que ainda estão presentes em nossa vida?
v  Que apoio recebo no Grupo para crescer na minha caminhada espiritual? E que ajuda posso  oferecer?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
            1 - Etty Hillesum, jovem judia holandesa morta em Auschwitz em novembro de            1943; num trecho de suas cartas, sugere que podemos nos tornar luminosos se       levarmos à toda parte nossa luz (3).
Sim, é grande a aflição, e contudo, muitas vezes, à noite, quando o dia que passou afundou atrás de mim nas profundezas, caminho com passo macio ao longo da cerca de arame farpado, e sinto sempre subir em meu coração – e não posso evitar, é assim, isso vem de uma força elementar – a mesma encantação: a vida é uma coisa maravilhosa e grande; depois da guerra teremos que construir um mundo completamente novo e, a cada nova exação, a cada nova crueldade, deveremos opor um pequeno suplemento de amor e de bondade a conquistar em nós mesmos. Temos o direito de sofrer, mas não de sucumbir ao sofrimento e se sobrevivermos a esta época indenes de corpo e alma, de alma, principalmente, sem amargura, sem ódio, teremos também algo a dizer após a guerra (...). A principal artéria de minha vida estende-se já para longe à minha frente e atinge um outro mundo. Parece que todos os acontecimentos presentes e futuros já deixaram a sua marca de alguma forma em mim, que já ao assimilei, já os vivi e que já estou trabalhando na construção de uma sociedade que sucederá a esta. A vida que levo aqui não fere em nada o meu capital de energia – o físico, é verdade, se deteriora um pouco, e cai-se, por vezes, em abismos de tristeza – mas, no âmago do nosso ser, ficamos cada vez mais fortes. Gostaria que o mesmo se desse com você, e com todos os meus amigos; é preciso, temos ainda tanto a viver e a realizar juntos. Por isso, exorto-os: mantenham firmemente as suas posições interiores assim que as tiverem conquistado e, principalmente, não fiquem tristes ou desesperados ao pensarem em mim, não há motivo algum para isso.
            2 - Davide Maria Turoldo, teólogo, poeta e sacerdote, dos Servitas de Maria:
Sozinhos, somos cada vez mais desesperados e perdidos, e Tu, sem nós, és um pobre Deus solitário e inútil: e por isso cada vez mais parecido conosco, com o menor dentre nós, um Deus humilde, fraco, perdido, apaixonado e compassivo, vindo viver toda a nossa fraqueza. Cada vez menos o Deus de todo-poder, cada vez mais o Deus da misericórdia e do perdão. Aí reside o verdadeiro todo-poder: conseguir nos perdoar, continuar a nos perdoar e a purificar todas as coisas, refazer uma Criação que seja digna de Ti, e que seja também a real moradia dessa criatura da qual estás desde sempre, Senhor, loucamente apaixonado. (Carta a Johana e Klaas Smelik e outros).
            3 - Arturo Paoli, sacerdote, dos Irmãozinhos de Charles de Foucauld, presente           na América Latina desde 1959, onde partilha a vida dos pobres e humildes. O            breve comentário a seguir nos chama a construirmos nós mesmos a caminhada      rumo à nossa identidade a partir do encontro com os mais humildes da história:
“O mais claro exemplo é, sem dúvida, a parábola do Bom Samaritano, narrada no capítulo 10 de São Lucas. O samaritano é um comerciante; é o motivo de sua viagem, ele pretende vender, ganhar bastante, realizar coisas bem precisas com os seus lucros. O seu mundo afetivo, econômico, político e relacional gira em torno desse centro vital. O ferido à beira da estrada o despoja, destrói essa maneira de ser. Enquanto o sacerdote e o levita continuam a ser o que são e a olhar o acidente do seu ponto de vista, resolvendo que não convém cuidar do ferido, o samaritano não raciocina, fica petrificado por uma visão, um encontro imprevisto; e isso faz com que decida como será a continuação de sua viagem: o que fará, como empregará o seu dinheiro, aonde irá com o ferido? O homem marcado pela morte decide a sua vida, desapeia o comerciante e o transforma em próximo, isto é, em responsável....
É aí que surge o paradoxo: a libertação da angústia que está em todo homem somente se realiza se assumirmos o “pecado do mundo”, a responsabilidade pelos outros, e é isso que Jesus nos propõe. Porque angústia se transforma em amor...”
CAPÍTULO  V
PRIMEIRA PARTE
CONSCIÊNCIA DA VOCAÇÃO
Vocação significa chamamento, eleição, predestinação.
No Antigo Testamento, a expressão “chamar pelo nome” significa, muitas vezes, uma eleição, uma vocação para uma determinada função.
“E agora, assim diz o Senhor,
Aquele que te criou, Jacó;
Aquele que te formou, Israel;
Não temas, pois eu te redimi,
Eu te chamei por teu nome,
Tu és meu”. (Is 43, 1)
No Novo Testamento, os Evangelhos falam muitas vezes num chamamento divino dirigido aos homens e mulheres: “muitos foram os chamados, mas poucos são os escolhidos” (Mt 22, 14). Com essa palavra paradoxal, provavelmente Jesus quis dizer que a vocação, o chamamento, nunca pode ser motivo para o homem se gloriar diante do Senhor. A vocação é uma eleição por mera graça de Deus.
É sobretudo em S.Paulo que encontramos a idéia de uma vocação divina: ...”os chamados por Cristo”. (Rom 1,6); ...”esta graça do chamamento é celestial”. (Ef 4, 1); ...”Deus salvou-nos e nos elegeu para uma santa vocação, não devido às nossas obras, mas em virtude de sua própria predestinação e graça”. (2 Tim 1,9)
Toda criança que nasce, ao vir ao mundo é chamada a tornar-se um homem, uma mulher, que deverá realizar o seu próprio projeto, a sua vocação, durante toda a sua vida. Se essa criança vive uma relação pobre ou insuficiente (principalmente com a mãe e a família) ela sente-se com uma identidade tão incerta que lhe é quase necessário pedir “licença para viver”, numa relação existencial que não lhe permite ter uma vida livre e autônoma. Nesse caso, o caminho para a construção da identidade e para as relações adultas paritárias é, sem dúvida, muito mais difícil.
Pelo contrário, aquele que recebeu o dom gratuito do amor tomou, progressivamente, consciência da identidade que lhe foi dada e a assumiu. Por fim, o jovem – quando conseguiu formar uma identidade pessoal equilibrada, aceitar plenamente a alteridade e as diferenças, e aceitar também que as relações são necessárias como fonte de riqueza de vida – não pode deixar de perceber o apelo para o encontro com o outro, encontro feito de reconhecimento mútuo e de apelos recíprocos à plenitude da vida. Trata-se do itinerário de uma vocação procurar um outro, alguém diferente de nós e que nos possa dar o que nos falta, um outro que possa ser para nós uma imagem forte, significativa e eficaz, do totalmente Outro que é Deus.
É nessa fase da vida, particularmente crucial, que amadurece o caminho de uma vocação, e na qual se torna mais claro o apelo ao encontro do outro. E se chamamos de vocação a escolha da vida consagrada à procura de Deus e ao serviço da comunidade, devemos também conceder a mesma dignidade de vocação à procura de um outro, semelhante, mas totalmente diferente, com quem possamos estabelecer uma relação totalmente íntima, que nos engaje por inteiro.
Na vocação religiosa e sacerdotal a pessoa é chamada a fazer uma experiência de Deus, na entrega de sua vida, consagrando-a ao Senhor. Na vocação conjugal a pessoa vai ao encontro do outro para viver a plenitude do amor e construir um projeto de vida a dois. Toda vocação é alimentada pela poderosa força do amor. O vocacionado é levado a sair de si mesmo, a buscar o outro, a entrar numa relação.
O amor que impulsiona a vocação é o amor da entrega, da doação. Amar não é o que se sente em relação ao outro, mas sim como se comporta em relação ao outro. Portanto, o amor não é o que o amor sente; o amor é o que o amor faz.
Golpe dolorosíssimo acontece quando a morte separa os cônjuges que viveram a experiência da vocação conjugal embasada no amor, no respeito, na alteridade, na oblatividade. A viúva, o viúvo, sabe o quanto é doloroso perder aquele ou aquela que foi o seu complemento, o seu amparo, a razão do seu viver. Somente a graça de Deus pode ajudá-los a sair desse tempo de total escuridão no caminho de sua existência.
O tempo de luto – indispensável para sanar a dor e as  feridas da perda – varia de pessoa para pessoa e deve ser respeitado. É um tempo doloroso sim, mas se vivido com dignidade, com espiritualidade, torna-se propício para um recomeçar, pois a vida continua e não se pode parar no tempo nem se demorar com os dias passados. Com a ajuda de Deus, com o poder da oração, com o carinho dos familiares e amigos, vai-se deixando para trás aqueles dias escuros, sem sol, noites sem estrelas, tempo sem perspectivas, passos sem rumo... É o prenúncio de uma nova aurora, é o recomeço de uma nova vida! A essa altura, com o coração aberto, a viúva, o viúvo, a pessoa só, está pronta para ouvir um novo “chamamento”, a descobrir uma nova vocação.
No projeto que Deus traçou para a humanidade há um lugar bem definido para todos, sem exceção, seja qual for seu estado de vida. Ninguém vem ao mundo por acaso; todos são convocados a desempenhar seu papel, a cumprir sua missão, sempre relacionados com o outro, pois o homem foi criado para viver em relação. Podemos afirmar que a vocação deve ser o excedente que temos em nós e que vai preencher o insuficiente do outro, da mesma forma que o excedente do outro preenche o nosso insuficiente.
Os fiéis leigos, incorporados a Cristo pelo batismo, constituem o povo de Deus que é chamado a exercer sua parte na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo.
Na Constituição Dogmática “Lúmen Gentium” (capítulo IV, 31) lemos: “É específico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no século, isto é, em todos e em cada um dos ofícios e trabalhos do mundo. Vivem nas condições ordinárias da vida familiar e social, pelas quais sua existência é como que tecida. Lá são chamados (vocacionados) por Deus, para que, exercendo seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, a modo de fermento, de dentro, contribuam para a santificação do mundo. E assim manifestam Cristo aos outros, especialmente pelo testemunho de sua vida resplandecente em fé, esperança e caridade. A eles cabe, de maneira especial, iluminar e ordenar de tal modo todas as coisas temporais, as quais estão intimamente unidos, que elas, continuamente, se façam e cresçam segundo Cristo, para louvor do Criador e Redentor”.
Texto de Meditação para a Reunião: 1Sm 3, 1 - 10
I Samuel 3, 1 - 10
O jovem Samuel servia, pois, ao Senhor na presença de Eli; naquele tempo, raramente o Senhor falava, e as visões não eram freqüentes. Ora, um dia, Eli já estava deitado no seu quarto – os seus olhos começaram a enfraquecer e não podia mais ver  -, a lâmpada de Deus não se tinha ainda extinto, e Samuel estava deitado no santuário do Senhor, no lugar onde se encontrava a arca de Deus. O Senhor chamou: “Samuel! Samuel!”  Ele respondeu: “Eis-me aqui!, e correu para onde estava Eli, e disse: “Eis-me aqui, por que me chamaste?”  - “Não te chamei”, disse Eli; “volta a deitar-te”. Ele foi deitar-se. O Senhor chamou novamente: “Samuel! Samuel!” Levantou-se e foi ter com Eli, dizendo: “Tu me chamaste: aqui estou”. – “Eu não te chamei, filho meu, disse Eli, “vai deitar-te”. Samuel não conhecia ainda ao Senhor, e a palavra do Senhor não lhe tinha sido ainda revelada. O Senhor voltou a chamar Samuel pela terceira vez. Ele se levantou, aproximou-se de Eli e  disse: “Aqui estou, por que me chamaste?” Então Eli compreendeu que era o Senhor que chamava o menino e disse a Samuel: “Vai deitar-se e, se te chamar de novo, dirás: “Fala, Senhor, que o teu servo ouve”, e Samuel foi deitar no seu lugar.
Veio o Senhor e ficou ali presente. Chamou, como das outras vezes: “Samuel! Samuel!”, e Samuel respondeu: “Fala, que teu servo ouve”.  Palavra do Senhor:
           Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
v  Estou consciente de que as raízes da minha identidade estão nas relações vividas na infância? Recebi um amor gratuito?
v  Quais as sombras e luzes da minha identidade que percebo como frutos da minha vida em minha família de origem?
v  Na contínua caminhada rumo à construção de nossa vocação, conseguimos mostrar ao outro o rosto de Cristo?
v  De que modo a troca de idéias no Grupo nos ajuda a tomar consciência de nossa situação de viúvas, viúvos e pessoas sós?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
            1 - Trecho da carta de uma viúva para uma viúva recente
            Amiga, ... Sei o que sentes, porque também eu já passei por isso. E a caminhada         por mim percorrida permite-me partilhar contigo a tua inquietação e grande            necessidade de compreensão. Como tu, conheço também aquela palavra tão            difícil de entender, tão custosa de viver: a solidão. No entanto, minha irmã,    aconselho-te a não te deixares abater demais. Não permitas que ela tome lugar   de preponderância na tua vida. Sabes, cada uma aprende a viver a sua solidão e         é muito importante tornar a encontrar uma qualidade de vida dentro do estar só.   Sê exigente quanto a essa qualidade....
            Parece-me que a melhor forma de ultrapassar os obstáculos inerentes a este     período da vida é a aceitação: aceitar conscientemente o fato de não ter mais o           marido ao nosso lado; procurar a sua presença em Deus pela Fé; consentir na          velhice com tudo quanto isso implica. Uma das formas desta aceitação consiste   em fazer o que esteja ao nosso alcance para continuar a viver plenamente até      o fim.
            Não é verdade que a vida é um dom de Deus? Por isso convém cuidarmos do nosso corpo para evitar, dentro do possível, o envelhecimento: procurar fazer um      pouco de ginástica, andar a pé, seguir um regime racional, evitando comer       guloseimas que tanto nos tentam. Cuidar também de nos alimentar o suficiente.        Não podemos deixar “a peteca cair”.
            No plano intelectual, é preciso lutar contra a perda das faculdades: procurar       novos campos de interesse, participar em colóquios e conferências, tomar parte         em cursos, enfim, enriquecermos mental e espiritualmente.
            Devemos dar à oração um lugar de muita preponderância na nossa vida.            Lembra-te das palavras de São Paulo: “a verdadeira viúva, aquela que ficou          sozinha neste mundo, põe a sua esperança em Deus, e persevera noite e dia em         orações e súplicas”. São Paulo nos fala a que, sobre a oração contínua, em fazer          de cada uma de nossas ações, uma oração. É necessário encontrar meios       simples para elevar à nossa consciência o sentimento da presença de Deus em             todos os momentos do dia: no trabalho, na refeição, no convívio, no repouso.
Lembra-te também das palavras do anjo às mulheres que se dirigiram ao túmulo de Jesus: “Por que motivo procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui: ressuscitou.” (Lc 24, 25)
A viúva vive da esperança – da esperança na ressurreição!
E agora um último conselho: conserva a tua liberdade, não permita que façam de ti uma “escrava”. Tens direito à tua vida. Procura realizar-te, ser útil amando e servindo, ocupando livremente, conscientemente, o teu tempo. No entanto, pouco conseguirás realizar sozinha. Seria muito positivo tomar parte num grupo ou movimento na paróquia, na diocese ou mesmo nalguma organização internacional.
Minha irmã, aprende a sorrir... Um sorriso nada custa, mas rende muito! Não há ninguém que tenha mais necessidade de um sorriso do que aquele que o não pode ou não quer oferecer!
Com amizade...
2 - Bertrand Russel: A conquista da felicidade
Exceto em raríssimos casos, a felicidade não é algo que cai na boca como um fruto maduro. É um estado a ser conquistado. Ela depende em parte de circunstâncias externas e, em parte, de nossa vida interior.
Algumas coisas são indispensáveis à felicidade da maioria dos homens: alimento, moradia, saúde, amor, trabalho compensador, respeito dos outros, uma família. Essas, contudo, são coisas simples. O homem feliz é o que vive para um objetivo, que tem afetos e interesses livres e variados e que encontra sua plenitude em contato com outros homens movidos pelo mesmo ideal, os quais, por sua vez, encontram nele sua própria plenitude.

     









CAPÍTULO  VI
PRIMEIRA PARTE

A VIÚVA, O VIÚVO E AS PESSOAS SÓS  ACOLHIDOS NO
PROJETO DE DEUS
No capítulo precedente refletimos sobre a consciência da vocação. Vimos que toda vocação é alimentada pela poderosa força do amor e tende a nos levar ao encontro do outro, dos outros e, essencialmente, ao encontro do Grande Outro.
O Concílio Vaticano II relembra-nos que “a razão principal da dignidade humana consiste na vocação do homem para a comunhão com Deus” (Gs 19). O nosso fim último é a participação da vida divina, seja qual for o nosso estado de vida.
A pessoa só muitas vezes vive o estado celibatário por uma opção de vida. Encontra sua realização pessoal no trabalho a que se dedica. Encontra sua vocação na disponibilidade à família, na dedicação aos mais necessitados, na comunidade religiosa ou paroquial. Ela é uma pessoa só, mas não se sente solitária porque vive rodeada da família, dos amigos, dos que ela procura ajudar a carregar seus fardos.
Existe aquela pessoa que gostaria de realizar-se no casamento, mas, por vários fatores, permaneceu só. Esse é o caso, também, das pessoas separadas que, por um motivo ou outro, não puderam manter a duração de seu casamento.
No caso da viuvez, ela não é uma escolha. A viuvez – estado de vida – é uma contingência... Ninguém “escolhe” ser viúvo ou viúva. A viuvez nos é imposta pelas adversidades da nossa existência. Nela são desfeitos os laços visíveis da vocação conjugal.
Em todos os aspectos citados, o apoio e a união da família são fundamentais. O amor nos leva ao encontro do outro, mas também ao encontro dos outros e do Grande Outro. É aí que a viúva, o viúvo e a pessoa só encontram o caminho a seguir. Se nos deixarmos conduzir pela força irresistível da fraternidade e do amor que Deus tem por cada um de nós, iremos perceber, claramente, que o Senhor sempre nos convoca porque não quer ninguém fora dos seus desígnios. Somos sempre chamados a desempenhar nosso papel nos palcos da vida e contracenar com o Grande Outro na nossa vida interior. Cabe a cada um de nós esforçar-se para corresponder à altura dessa convocação.
A solenidade da Ascensão do Senhor nos mostra que não podemos ficar parados olhando para o céu, vendo o Cristo ressuscitado voltar para a casa do Pai. A ascensão nos convida a assumir a presença constante de Jesus Cristo entre nós e nos convoca a continuar sua missão aqui na terra: a salvação para todos através da construção do Reino.
O Evangelho de Marcos (Mc 16, 15-16) lembra as palavras de Jesus a seus discípulos: “Ide por todo o mundo e anunciai a boa notícia a toda a humanidade. Quem crer e for batizado se salvará. Quem não crer se condenará”.
Crentes e batizados, somos os “apóstolos” do nosso tempo. Ao fazer parte do corpo místico de Cristo – tão bem descrito por São Paulo (Rn 12, 4-8) – toda a humanidade torna-se co-salvadora e co-redentora, recebendo a missão de comunicar a salvação e a redenção a todos os homens e mulheres de todos os tempos.
Somos todos – sem exceção – portadores da força do Espírito Santo; somos portadores do amor de Deus.
Com a ascensão de Jesus, queremos reconhecer que – por mandato do Ressuscitado – fomos convocados e enviados à missão de continuadores da missão de Jesus. Com a ascensão de Jesus e o advento do Espírito Santo em Pentecostes, iniciamos o tempo da Igreja. E a Igreja somos todos nós... Precisamos, pois, sondar o nosso íntimo e descobrir qual é o nosso papel de cristãos, no nosso estado de viúva, viúvo e pessoas sós.
Nos primeiros séculos do cristianismo, a viuvez era tratada com muito respeito. As viúvas, as virgens, gozavam de um lugar de honra na comunidade religiosa, exercitando certas funções, em estreita ligação com os bispos e os diáconos. Chegou-se a instituir a “Ordem das Viúvas”, que gradualmente foi substituída pelo ministério das diaconisas. No século IV, com o surgimento da vida monástica, tanto a Ordem das Viúvas como o ministério das diaconisas desapareceu.
A maior parte das responsabilidades atribuídas às viúvas e mulheres consagradas das primeiras comunidades pode e deve ser assumida por mulheres e homens da igreja contemporânea, empenhados numa vida de serviço paroquial: colaborar com os sacerdotes nas paróquias nos mais variados serviços (catequese, ministro da eucaristia, ministro do altar etc.), orar com a Igreja, visitar os doentes, oferecer hospitalidade... enfim, praticar toda espécie de boas obras.
A espiritualidade das viúvas, viúvos e pessoas sós, consiste em “viver todas as exigências cristãs”, de acordo com a realidade de seu estado de vida, de sua disponibilidade e dos talentos recebidos. Fazem parte das exigências cristãs: a oração, o testemunho, a abnegação, a caridade, a pureza, a ascese, a freqüência aos sacramentos, o espírito de desapego, a humildade, entre outros.
As C.N.S.E. desejam e têm como objetivo ajudar seus membros na conquista de sua espiritualidade, na descoberta do caminho que os conduzirá, cada dia mais, ao encontro com o Cristo “Caminho, Verdade e Vida”.
Texto de Meditação para Reunião:  1 Co 12, 1-28 - Carismas
Irmãos, a respeito dos dons espirituais, não quero que estejais na ignorância. Sabeis que, quando pagãos, seguíeis um impulso para ídolos mudos. Por isso vos faço saber que ninguém, movido pelo Espírito de Deus, pode dizer: Maldito seja Jesus!  E ninguém pode dizer: Senhor Jesus! Se não é movido pelo Espírito Santo.
Existem carismas diferentes, mas um único Espírito; existem ministérios diferentes, mas um único Senhor; existem atividades diferentes, mas um único Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada uma manifestação do Espírito para o bem comum.
Um, pelo Espírito, tem o dom de falar com sabedoria; outro, segundo o mesmo Espírito, o de falar com penetração; outro, pelo mesmo Espírito, a fé; outro, pelo único Espírito, carismas de curas; outro, realizar milagres; outro, profecia; outro, o discernimento de espíritos; outro, falar línguas diferentes; outro, interpretar línguas misteriosas. Mas tudo é realizado pelo mesmo e único Espírito, repartindo a cada um como ele quer. Como o corpo, sendo um, tem muitos membros, e os membros, sendo muitos, formam um só corpo, assim é Cristo. Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, nos batizamos num só Espírito para formarmos um só corpo, e absorvemos um só Espírito. O corpo não consta de um membro, mas de muitos. Se o pé dissesse: visto que não sou mão, não pertenço ao corpo, nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. Se o ouvido dissesse: visto que não sou olho, não pertenço ao corpo, nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. Se todo o corpo fosse olho, como ouviria? Se fosse todo ouvido, como cheiraria? Deus dispôs os membros no corpo, cada um como quis. Se tudo fosse um só membro, onde estaria o corpo?
Portanto, os membros são  muitos, o corpo é um. Não pode o olho dizer à mão: não preciso de ti. Nem a cabeça aos pés: não preciso de vós. Mais ainda: os membros do corpo considerados mais fracos são indispensáveis, e os que consideramos menos nobres rodeamos de maior honra. Tratamos com maior decência as partes indecentes; as decentes não precisam disso. Deus organizou o corpo, dando maior honra ao que carece dela, de modo que não houvesse divisão no corpo, e todos os membros se interessassem igualmente uns pelos outros. Se um membro sofre, sofrem com ele todos os membros; se um membro é honrado, alegram-se com ele todos os membros. Vós sois corpo de Cristo e membros singulares seus. Deus os dispôs na igreja: primeiro apóstolos, segundo profetas, terceiro mestres, depois milagres, depois carismas de cura, de assistência, de governo, de línguas diversas.  Palavra da Salvação:
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
1 – Respondemos como viúvas, viúvos e pessoas sós ao chamado que nos leva ao encontro dos outros e do Grande Outro?  Quando isso acontece?
2 –Cristão é aquele que vive os ensinamentos do Cristo. Quais são esses ensinamentos? O que já conseguimos incorporar à nossa vida?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos  que alimentam a nossa fé           
            1 – São Paulo, Apóstolo
Discernir a voz de Deus entre as várias vozes no nosso íntimo (cf. Gs, 16) para atuar no presente a sua vontade, é um exercício contínuo ao qual os santos se submeteram docilmente. E nesse exercício contínuo o discernimento se faz cada vez mais fácil porque a voz de Deus dentro de nós se amplia e se fortalece. Às vezes isso não é simples, mas se acreditarmos no amor de Deus poderemos fazer com tranqüilidade aquela que julgamos ser a sua vontade, com a confiança de que, se não o é, Ele nos recolocará na estrada certa.
“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que são chamados segundo o seu desígnio”, recorda São Paulo aos romanos (Rm 8, 28).
2 -  Raissa Maritain:
Os deveres de cada instante escondem, sob as obscuras aparências, a verdade da divina Vontade, eles são uma espécie de sacramentos do tempo presente”.
Do livro Testemunhas da Esperança, de François X.N. Van Thuan
3 - Douglas Malloch -  O melhor possível
            Se você não puder ser um pinheiro no topo da colina,
            Seja um arbusto no vale.
            Mas seja o mais frondoso arbusto à margem do regato.
            Seja um tronco, se você não puder ser uma árvore
            E se não puder ser um tronco,
            Seja um punhado de relva
            Mas dê beleza a algum caminho.
            Se você não puder ser o almíscar
            Seja simplesmente uma tília
            Mas, a mais viva tília do lago.
            Nem todos podem ser o capitão do barco
            Mas para todos há sempre um trabalho a empreender.
            Se você não puder ser a estrada
            Seja somente uma sende
            Se não puder ser o sol
            Tenha o brilho de uma pequena estrela
            Porque, meu filho, não é pelo tamanho que se mede o valor de um homem.
            Mas seja sempre o melhor
            No que quer que você seja.
                                                                      


CAPÍTULO  VII
PRIMEIRA PARTE
ACOLHER O OUTRO PARA ACOLHER O SENHOR
Nosso desejo de conhecer a Deus, de entrar na sua “intimidade” pela oração, só pode ser preenchido pelo encontro com Cristo. Cristo nos dá Deus. Cristo é Deus. Quando o apóstolo Filipe pede a Jesus: “Mostra-nos o Pai”, Jesus responde: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,8). O Senhor Deus faz-se constantemente próximo de nós por seu Filho, e podemos realmente encontrá-lo todas as vezes que, ao acolher cada um dos nossos irmãos ou qualquer outra pessoa  que seja o nosso próximo, reconhecemos em seu semblante as feições do Outro absoluto – o rosto de Deus.     
O homem que na origem foi criado à imagem de Deus certamente não é como Deus, mas possui algo de Sua essência e de alguma forma O reflete, porque desde o início é a imagem de Deus, que é relação.        
Com efeito, o homem se descobre a si próprio a partir do momento em que um outro ser humano o acolhe; dá um grito de alegria quando descobre que não está só, que tem ao seu lado alguém que lhe é semelhante. O homem, portanto, somente se descobre, se reconhece, torna-se ele mesmo e se desenvolve na sua relação com Deus e com os outros. Pelo contrário, a solidão é a sua morte espiritual e física.
A relação o  leva a praticar o dom de si, por meio do qual o homem encontra e exprime a plenitude de seu ser e de sua existência, e aprende a conceber a vida como um dom e como algo que não pertence somente a ele, mas também a um outro, que lhe dá o seu verdadeiro sentido.
Nascemos do mistério do encontro de amor de outras pessoas      que nos deram a vida; permanecemos vivos graças ao ar que respiramos gratuitamente em nossos pulmões. Esse ar não é só um elemento natural, vital, mas, simbolicamente, é também o alimento da alma, do coração e do espírito.
O Outro absoluto, Deus, vive também de uma relação de acolhida, não somente em relação ao homem, mas também em si mesmo. Ele é Pai, e Mãe também, como o recordava o Papa João Paulo I, Ele é Filho, e Ele é um Amor tão poderoso e misterioso que se encontra personificado no Espírito.
Filipe pede a Jesus: “Mostra-nos o Pai”. Jesus lhe responde: “Quem me viu, viu o Pai” (Jô 14, 8). Ver Jesus, o homem Jesus, Filho de Deus, significa ver Deus. Isso significa que temos a possibilidade, em nossa natureza humana, de entrar na forte e feliz relação trinitária.
Uma das “Palavras Muçulmanas sobre o Cristo”, reproduzidas num caderno da revista internacional de teologia Concilum (2003), diz: Jesus encontrou um homem e lhe perguntou: “O que fazes?” O homem responde: “Consagro-me a Deus”. Jesus lhe perguntou: “Quem cuida de ti?”. “Meu irmão”, respondeu o homem. Jesus lhe disse: “O teu irmão tem maior devoção a Deus que tu”.
Procurar a Deus sem levar em conta o homem é uma pista falsa – histórica, religiosa e espiritualmente. Não se chega a Deus fechando os olhos para as necessidades do irmão. Na narração do Juízo Final Jesus no-lo recorda sem equívoco. Quando vimos Jesus? Quando encontramos e acolhemos o doente, o prisioneiro, o esfomeado e o sedento.           
Quando termina a noite?
Um rabino costumava perguntar a seu discípulo: “Quando termina a noite e começa o dia?” O discípulo dava diversas respostas, nenhuma satisfatória. Finalmente, desanimado, deixava o mestre responder. E o rabino lhe disse: “Quando vês no rosto de um outro o rosto do teu irmão, é então que termina a noite e começa o dia”.
Seria preciso que nos olhássemos mais freqüentemente nos olhos. O mundo perde um pouco de sua noite e recebe melhor a luz do sol cada vez que as pessoas conseguem aceitar-se  mutuamente , com as suas belezas e as suas misérias. Isso só é possível se nos encontramos e nos consideramos no mais fundo da alma.
Todo encontro de dois seres humanos nasce de um olhar, mas o olhar, para ser autêntico, precisa de silêncio. A inflação de palavras, quer em cascata violenta e barulhenta, quer mesmo de maneira delicada e sugestiva, nunca substituirá o silêncio mágico de um olhar.
Do medo à acolhida confiante
É o medo que nos impede de conhecer as nossas capacidades, de crescer e viver fraternalmente. Pode-se ter medo dos homens, mas também de Deus, quando Ele nos conduz por caminhos desconhecidos. Pensemos no temor de Maria quando o anjo lhe propõe tornar-se a Mãe de Deus. É do medo do outro que nascem todos os obstáculos ao encontro do outro, devido ao medo do outro; os cristãos muitas vezes se esquecem de que Deus se fez homem e quer salvar todos os homens, sem distinção de raça ou religião.
Quando partilhamos determinado momento ou situação, torna-se possível ultrapassarmos a aparência do outro. Demasiadas vezes nos detemos na superfície das coisas e das pessoas e não conseguimos perceber o que elas escondem. Não conseguimos encontrar o tesouro que está no outro.
O rosto do homem é o rosto de Deus
Em suma, o rosto do homem é o rosto de Deus. É a maneira pela qual o Senhor vem encontrar a nossa liberdade e realizar o seu projeto a nosso respeito: no sim que dizemos, principalmente aos acontecimentos, pois a trama de nossos dias é tecida de acontecimentos e fatos de aparência freqüentemente banal; e, normalmente, é através desses acontecimentos que o Senhor se torna presente em nossa vida, e não em nossos projetos, pensamentos, imaginações e sentimentos mais ou menos esclarecidos e muitas vezes cambiantes. E os acontecimentos se revestem da fisionomia precisa do rosto dos homens e de sua história. Como no-lo lembra o Natal, o nosso Deus é um “Deus feito carne” que, para nos encontrar, quis entrar fisicamente na história e, pelo desenrolar desses acontecimentos, quis encontrar a vida de todos nós. O cristianismo é uma religião encarnada, que crê num Deus que se fez menino pobre numa gruta da Judéia e foi crucificado como um malfeitor na cidade que os judeus acreditavam ser habitada por um outro Deus.
Se acreditamos nesse Deus, fazemos a experiência de uma amizade que se torna comunhão, comunidade cristã, elemento num mundo novo, de traços diferentes dos demais. Nossa fé se faz “carne”, corpo do Cristo, que pode ser encontrado e “tocado” por todos, em todos os meios, mesmo naqueles que são aparentemente os mais hostis e afastados. Se pensarmos nisso, como é grandioso! Nos nossos encontros, não é apenas Marcos, Antônio, Joana, Sara, Lucas, Francisco, ou outro qualquer que encontramos, mas é Jesus, graças à sua presença entre nós, em nossa comunhão. Aí está o instrumento que o Senhor escolheu para encontrar o homem: não os cursos bíblicos ou teológicos, a eloqüência ou a sabedoria, as qualidades pessoais ou a consistência moral, mas sim a comunhão com aqueles que se reconhecem n’Ele, que se torna presente e se deixa encontrar em todos os meios.
Texto de Meditação para a Reunião: Mt 25, 34 - 4
Então dirá o rei aos que estão à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me. Então os justos lhes responderão: Senhor, quando é que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando é que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando é que te vimos doente ou preso e fomos te ver?” Ao que lhes responderá o rei: “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”.  Palavra da Salvação
Para reflexão e Troca de Idéias na Reunião
            1 – O que pensamos da situação presente e do futuro da nossa família?
            2 – Como nos sentimos aceitos dentro da C.N.S.E.?
            3 – Como nossa comunidade encarna a sua fé em Jesus de Nazaré, Filho de    Deus, Salvador da humanidade?
            4 – Como O anunciamos e O mostramos aos outros?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
            1 - Da espiritualidade popular indiana: “A mangueira(Para um indiano, o    paraíso é inconcebível sem mangas):
Um ancião cava em seu jardim: “Que fazes?”, perguntam-lhe. “Planto uma mangueira”, responde. “Achas que vais comer os seus frutos?”, dizem-lhe ainda. E ele replica: “Não, não viverei o suficiente para provar os seus frutos, mas outros poderão prová-los. Quanto a mim, comi durante toda a minha vida frutas plantadas por outros”.


2 - Santo Ambrósio, Bispo de Milão, no séc. IV:
O bem de seus filhos será o que eles mesmos terão escolhido: não sonhem em transferir-lhes os seus desejos. Bastará que saibam amar o bem e guardar-se do mal, e que tenham horror à mentira. Não queiram pois delinear o seu futuro; tenham, isso sim, orgulho de que eles alcem vôo para o amanhã, mesmo quando lhes parecer que os estão esquecendo. Não encorajem ingênuas idéias de grandeza, mas se Deus os chamar a fazer algo de belo ou de grande, não sejam o empecilho que os impede de voar. Não se atribuam o direito de tomar decisões em seu lugar, mas ajudem-nos a compreender que é preciso decidir e que não devem estranhar que aquilo de que gostam requeira esforços e, por vezes, acarrete sofrimentos, por que não se pode agüentar uma vida vivida sem motivo. Mais do que os seus conselhos, é a estima que eles têm por você e a estima que vocês têm por eles que os ajudará; mais do que por mil recomendações esmagadoras, serão ajudados pelos gestos que terão visto em casa. [...] Todos os discursos sobre a caridade não me ensinarão mais do que o gesto de minha mãe mandando entrar em casa um vagabundo esfomeado; e não conheço gesto melhor para manifestar o orgulho de ser homem do que o de meu pai tomando a defesa de um homem injustamente acusado. Que os seus filhos morem em sua casa gozando do bem-estar que incita a ficar à vontade e encoraja a sair de casa, porque assim ele lhe dá a confiança em Deus e o gosto por uma vida bem vivida.
            3 - Arturo Paoli, Irmãozinho de Charles de Foucauld, nascido em Lucca         (Itália) em 1912, passou a maior parte de sua vida na América do Sul –         Venezuela, Argentina, Brasil – partilhando a vida difícil dos mais pobres e       deserdados:
Imaginemos um homem que, em sua peregrinação pelo mundo dos homens, carregou sobre si todas as misérias que encontrou e não conseguiu dar uma resposta à pergunta de por que tanta miséria, a ponto de endurecer e afastar-se do Deus objeto de suas orações habituais. Um dia, no deserto de sua alma, penetra um fogo devorante, de repente, de improviso, sem ser aguardado. Esse fogo, ainda sem nome, o envolve com laços apertados, o torna obediente e passivo, e ao mesmo tempo o arrasta junto com ele rumo aos Outros. Não mais consegue lhe dar o nome do Deus a quem sempre se dirigiu em oração; esse fogo é o Deus que desce, que vem encontrá-lo, mandá-lo de volta aos outros. O outro é a sua religião, o seu amor por Deus, a sua obediência a Deus, é o “eis-me aqui”, a última palavra que o “eu” pronuncia antes de ser consumido pelo fogo.
4 - Oração “nua” de Juan Arias
Senhor, gostaria, eu também, de fazer para você a minha oração. Uma oração que só tem uma palavra: os outros. Não é por generosidade; é uma necessidade vital. Sem os outros, estou morto, sou um sonho, uma sombra, não sou nada. São os outros que melhor me revelam a realidade que eu sou. São eles o  meu Deus e eles são eu mesmo.
            Em meio aos outros, Senhor, há os que dormem, os que despertam, os que têm fome, ou ainda os escravos. Para eles quero ser grito, esperança, pão e liberdade.
            Há no meio deles os que têm sede de toda justiça e acreditam em todo gesto humano.
Quero pegar a sua mão para caminharmos juntos, em questioná-los. [...]
            Estão no meu barco, sonham com a mesma margem, ainda que não lhes tenhamos dado a todos o mesmo nome; falam a mesma língua: aquela que quer libertar todo homem de toda escravidão.
Se houver em meu barco um deles cujos olhos se iluminam com a luz dos ressuscitados, comerei com ele os primeiros frutos da vida; o crepúsculo confundir-se-á com o amanhecer; não se perceberá mais a diferença entre o sol e a neve, e até os figos serão eucaristia.
            E, verdadeiramente, seremos Tu.
            Mas, por que é tudo isso assim, e por que, por necessidade minha e desejo meu, fiz tudo isso, Senhor? Quanto a mim, assumo o compromisso de inventar a cada dia novos meios de fazer mais, mas gostaria de oferecer aos outros a possibilidade de pedir-me o que gostaria que eu fizesse para ajudá-los a se libertar.
Gostaria, Senhor, que nunca me faltasse a coragem de conservar sempre a minha porta aberta a todo pedido humano que leve ao desabrochar do homem. Sinto que somente assim a esperança do meu desabrochar poderá ter sentido, e poderei pedi-lo a Ti, sem corar.






















CAPÍTULO  VIII
PRIMEIRA PARTE
“QUEM DIZEM QUE EU SOU?”  - Parte I
“TU ÉS O CRISTO, O FILHO DE DEUS”
Se completarmos o caminho de nossa maturidade humana, se formos até o fim do caminho da fé, poderemos então responder em plena consciência, de maneira firme e com segurança, à pergunta de Jesus “E vós, quem dizeis que eu sou?” – “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”.
A resposta que buscamos não podemos encontrá-la numa idéia, mas sim numa pessoa viva, Jesus Cristo, Salvador de todos os homens, modelo de vida para todo ser humano. A resposta que buscamos, aquela que dá sentido a tudo aquilo que vivemos, é o Cristo, que em primeiro lugar nos amou e que, da mesma forma, pede a cada um de nós: que amemos, nada mais.
Caminho percorrido
Percorremos um caminho de reflexão para tentar responder, também nós, à pergunta de Cristo: “Quem dizeis que eu sou?”
Interrogamo-nos juntos, em Grupo, procurando encontrar as respostas susceptíveis de indicar o sentido da nossa fé, da nossa vocação, da nossa maneira de viver; vimos e compreendemos que um número sempre crescente de pessoas vive hoje num clima de grande incerteza devido às transformações rápidas de uma sociedade que perdeu a estabilidade tranqüilizadora da época anterior, tanto em nível econômico, com desequilíbrios cada vez mais acentuados e preocupantes, como em nível social e civil, e também ético e religioso.
Esta incerteza gera a insegurança e o medo diante do tempo presente – o que vai acontecer comigo? -, diante do futuro – o que vai acontecer com minha família? – e, paradoxalmente, mesmo em relação ao passado – será que me enganei? Em quê? Ao fim de uma longa reflexão durante este ano todo, as perguntas fundamentais do homem parecem ficam sem resposta: Por que vivo? De onde venho e para onde vou? Existirá um futuro possível noutro lugar? Existirá realmente um futuro no além? E, principalmente, qual o sentido, qual o significado de minha existência?
Olhando ao redor de nós, temos que constatar cada vez mais claramente uma crise da família que, durante séculos, fora um fator de estabilidade; vemos tensões entre pais e filhos que recusam a experiência do passado, relações sexuais nem sempre vividas como relação de amor, confusão de papéis entre o homem e a mulher que, recentemente, atingiu a sua emancipação, embora ainda parcial; e, finalmente, tensões entre os casais. Em particular, os pais parecem ter renunciado ao seu papel educativo, justamente por lhes faltar confiança na vida que viveram e que vivem; os jovens parecem encarar o casamento com receio.
No mundo inteiro, muitos se perguntam se os usos e tradições herdados do passado são valores de civilização, de sociabilidade, pontos de ancoragem, ou se não passam de herança de situações terminadas com as quais não há mais motivos de se querer prosseguir. Na realidade, contudo, será tudo isso tão negativo assim?
... há uma resposta ...
Podemos, nesse panorama tão negativo, e de forma cada vez mais consciente, detectar uma resposta capaz de operar uma revolução na vida daquele que crê: a resposta não está no âmbito das idéias, da ideologia; a resposta é um homem vivo, é Jesus Cristo.
É ele que revela o mistério da história do cosmos e de cada um de nós. O mistério revelado é que, na raiz da evolução cósmica milenar que levou à aparição do homem na terra, há um Poder criador. Deus-Pai – que não somente faz com que o homem exista, mas, principalmente, faz dele o objeto de uma relação de amor tão intensa e radical que reparte, por seu Filho a condição humana, “pois Ele mesmo foi provado em tudo, como nós, com exceção do pecado” (He 4,15); e que, na Ressurreição do Filho, prefigura o nível de plenitude definitiva ao qual todo homem é chamado.
Assim, o Cristo, não somente revelador, mas também modelo de vida e salvador, é o centro da vida daquele que crê.
Jesus Cristo pode tornar-se o modelo de uma vida que vale a pena viver, de uma vida cheia de sentido. Ele tem a resposta a todos os desejos de grandeza, de bondade, de eternidade, de infinito, que estão no coração do homem. Ele nos salva ainda que o mal continue a existir em nós e no mundo, ainda que a provação e o sofrimento nos atinjam de perto, ainda que a nossa vida acabe com a morte. Ele nos salva porque a sua misericórdia nos mostra que os pecados são perdoados, porque nos ensina que o sofrimento e a provação não são um destino selado para sempre, mas  principalmente ele nos salva porque ressuscitou!
Deus não nos salva sem nós
“O Deus que te criou sem ti não te salvará sem ti” (Sto. Agostinho). Considerar o Cristo como o modelo do homem que Deus quis e desejou comporta a nossa vontade de segui-lo, assumindo os traços característicos que fazem dele um grande mestre, mesmo para muitos não-crentes.
Para aqueles que crêem, esses traços não são os que fizeram dele há dois mil anos o homem que ao passar pelo mundo nele deixou uma marca indelével, mas são as características do homem-Deus, que vive hoje, ontem e sempre, e que opera continuamente (“Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho” Jô 5, 17) para que a vida de todos os homens seja divinizada, num sentido que ultrapassa os limites do tempo.
Jesus Cristo se fez o que somos para que nos tornemos o que ele é; esse é o ensinamento dos Padres da Igreja.  “Jesus Cristo se fez homem para que sejamos divinizados” (Sto. Atanásio); “o homem é uma criatura, mas uma criatura que recebeu a ordem de tornar-se Deus” (S. Basílio de Cesaréia); “se Deus tornou-se homem, o homem tornou-se Deus” (S. Cirilo de Alexandria); “somos divinizados por Jesus Cristo” (S. Gregório de Nazianzo).
Enquanto a obra de Deus, por Jesus Cristo e no Espírito, nunca falta, pode, isto sim, falhar a resposta vigorosa, franca, segura, consciente, que consiste em esforçar-nos em ser como ele. “Ele permanece aquele que nos amou em primeiro lugar, que inclinou-se sobre a criatura tirada do nada, para que pudesse participar livremente da plenitude divina; criatura chamada à existência não somente para amar, mas para ser, por sua vez, amada. Essas duas linhas do amor – descendente e ascendente – se encontram e se confundem; uma desce como um raio de luz, a outra sobe como o jorro de uma nascente de água viva. E ambas atestam o milagre de amor anunciado pelo apóstolo S.João: somos já filhos de Deus”.


A resposta indispensável do homem
Digamos, uma vez mais, que a resposta do homem ao milagre do amor divino é necessária e que, já que temos um modelo, a resposta consiste em segui-lo, em tentar encarnar em mossa vida os traços característicos de Jesus que conhecemos pelos Evangelhos.
Antes de mais nada, é o amor sem condições; disso temos muitos exemplos: quando “ele se senta à mesa com publicanos e pecadores”, quando perdoa o adultério, ao mesmo tempo em que ordena não mais pecar, quando conduz com amor a Samaritana a uma introspecção que renova a sua vida. Vejamos agora quais são os traços característicos de Jesus que respondem particularmente às nossas necessidades atuais:
  • Jesus Cristo é servo por amor: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20, 28).
  • É o mestre que tem autoridade:  “Extasiavam-se com o seu ensino porque lhes ensinava com autoridade” (Mc 1, 22), que provinha do fato de que ele proclamava a Verdade e propunha uma escala de valores explicitada nas Bem-Aventuranças e testemunhada por sua vida.
  • O Cristo é um homem livre em relação às normas, aos costumes, e até à Lei que ele veio “cumprir”; ele não limita a relação com Deus a um conjunto de ritos a observar, mas faz consistir na conversão do coração: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).
  • Ele acolhe a todos, vai ao encontro de todos, em torno dele respiramos como um ar de família, e hoje ele nos convida a uma sociabilidade que se opõe aos contra-valores do individualismo – sinal de egoísmo, de fechamento aos outros, que nega os valores que estão no coração do homem.
  • Para nós, para sermos seres vivos, é essencial colocar-nos a serviço, sermos credíveis, harmonizando-nos com o Evangelho, sermos livres de constrangimentos e condicionamentos do mundo, mas não alforriados da lei do amor, sempre abertos e acolhedores para todos. Ao estarmos totalmente impregnados pela lei do amor, ficamos completamente livres; livres também do medo e da insegurança que se espalham entre os homens; livres, ainda, porque, paradoxalmente, somos totalmente servos.
  • No amor pelos homens, confirmaremos o nosso amor pelo Pai e não teremos mais receio de ouvir a pergunta: “Quem dizeis que eu sou?”, porque sabemos que o Cristo é aquele que nos amou primeiro e só espera de nós uma resposta, a resposta do Amor.
Texto de Meditação para a Reunião:  Jo 6, 32 - 40
                        Em Cafarnaum, Jesus respondeu à multidão: “Em verdade, em verdade,                        vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai                               quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que                      desce do céu e dá vida ao mundo.” Disseram-lhe então: “Senhor, dá-nos                      sempre deste pão!” Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a                   mim, nunca mais terá fome e o que crê em mim nunca mais terá sede. Eu,               porém vos afirmo: vós me vedes, mas não acreditais. Todo aquele que o                        Pai me der virá a mim e quem vem a mim eu não o rejeitarei, pois desci do                   céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou.                        E a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nada do que                     ele me deu, mas o ressuscite no último dia. Sim, esta é a vontade do meu                 Pai: quem vê o Filho e nele crê tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no                             último dia.”  Palavra da Salvação:
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
            Ao longo do percurso que fizemos estudando este tema, queremos sugerir        uma pergunta para que cada um reflita sozinho e depois seja debatida no grupo:        se o Cristo nos encontrasse hoje nos perguntasse:
                        “Quem dizeis que eu sou?”          
                        Qual seria a nossa resposta?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
1 - Enzo Bianchi, monge da Comunidade de Bose:
            Por que Deus se fez homem?
A pergunta do motivo pelo qual Deus se fez homem, constantemente recorrente através dos séculos de cristinianismo, recebeu, no essencial, uma só resposta, mas sob duas formas distintas e não contraditórias, uma no Oriente, outra no Ocidente. Na tradição oriental impôs-se a fórmula de Santa Atanásio: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus”, isto é, para que ele conhecesse o caminho da theosis, a divinização; no Ocidente, insistiu-se mais na ação salvífica realizada por Deus em Jesus: “Deus se fez homem para salvar o homem”.
Se aprofundarmos, contudo, as duas respostas, estou convencido – e espero que ninguém se escandalize com isso – de que a resposta também se pode exprimir assim: “Deus se fez homem para que o homem se torne realmente homem!”
Sim, Deus se fez homem em Jesus de Nazaré para nos mostrar o homem autêntico, o homem realmente feito à sua semelhança e ensinar-nos assim a viver em plenitude, até conhecer – e ouso dizê-lo -, não somente dias cheios de alegria, mas até de glória. Aliás, é esse o sentido da encarnação, tal como no-lo apresenta principalmente o quarto Evangelho: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória... (Jo 1,14).
2 - Christian Duquoc:
Jesus é Deus de uma maneira especial – como Filho – e ser Deus dessa forma não anula o que também foi: Jesus de Nazaré. Muito pelo contrário, é por meio do que foi, humana e historicamente, que ele se manifesta a nós como “filho”, a tal ponto que não conseguimos alcançá-lo em seu ser divino colocando entre parênteses ou esquecendo o que foi. O que é original em Jesus, e constantemente rechaçado por nós, é que seja Filho de Deus num sentido que não é só o de uma proximidade moral com Deus, mas de uma identidade misteriosa com a própria realidade de Deus, sem que essa destrua a sua vida histórica ou a torne anódina. Muito pelo contrário, se ele é reconhecido como Filho, com fundamento na Ressurreição não o é a despeito de sua vida terrestre, mas é por meio dela, porque é somente por meio dela que se torna perceptível o sentido de sua filiação divina. Não é na manifestação do seu poder aniquilando os seus adversários, nem na majestade do Juízo assegurando a justiça, nem na glória insuspeita de Deus espalhando um temos sagrado, mas sim numa personalidade, numa autoridade, numa liberdade humana, no perdão, na opção pelos excluídos, que ele é Filho de Deus. O importante é que Deus seja reconhecido precisamente aí, e não no poder irresistível, no temos sagrado, na permanência da ordem. A realidade de Deus não nos é acessível por ela mesma, ela se nos torna visível num rosto humano, o rosto do Filho, Jesus”.
3 - Jean Allemand:
O Cristo é a Palavra de Deus encarnada, tornada um de nós. Por toda a sua vida, por seu ensinamento, seus gestos, sua Paixão e sua morte, Ele é a Palavra de Deus aos homens. O Cristo é a Palavra total, definitiva, insubstituível, que exprime Deus à perfeição. A Palavra de Deus não é em primeiro lugar um texto, mas uma Pessoa.           
















CAPÍTULO  IX
PRIMEIRA PARTE

“O QUE DIZEM OS QUE NÃO CONHECEM CRISTO”
Jesus pergunta: “Quem dizem eles que eu sou?”  Esta pergunta é a primeira de duas. A primeira, Ele a faz às pessoas que o cercam; a segunda, ao contrario, é feita aos discípulos, aos que estão perto de Jesus e que O escutaram, viram tudo o que Ele fez e estão, de alguma forma, comprometidos a segui-lo. Pedro, como porta-voz dos doze, diz: “Tu és o Cristo”. Uma profissão de fé; contudo Cristo continuou sendo um mistério para eles.
“Eles”, por sua vez, referem-se àqueles que não O conheceram tão intimamente como os discípulos e os apóstolos. “Eles” são, possivelmente, os espectadores, aqueles que tinham visto os milagres e talvez escutado as parábolas. “Eles” são a multidão que vai e vem. A multidão que se juntou para o “Sermão da Montanha”, a multidão que O seguia para locais ermos para ouvi-lo falar, a multidão que foi miraculosamente alimentada, mas também disse “esta linguagem é intolerável” e não mais O seguiu, e, finalmente, a multidão que O aclamou em Jerusalém e se virou contra Ele e gritou pelo Seu sangue e O escarneceu na Cruz.
Portanto, “Eles” são aqueles que flutuam conforme as circunstâncias – seguem Cristo quando é conveniente fazê-lo, fogem quando se exige um compromisso. A sua resposta à pergunta “Quem dizem eles que eu sou?” é que Ele é como um dos antigos profetas. A resposta da multidão, contudo, era variada: era um dos antigos profetas, um deles que tinha voltado, ou, ainda, um profeta que havia voltado à vida. Faltava a estas respostas profundidade e, por fim, faltava a fé num Cristo personificado e Salvador de todos. Estariam eles esperançosos de que o passado voltasse, ou negando a realidade do presente, ou incapazes de se abrirem ao futuro? Hoje a multidão é muito diferente.
Muitas pessoas há hoje, no mundo, que não têm as oportunidades que teve o povo do Evangelho, ou que os cristãos têm, hoje, de encontrar Cristo, de ouvir a Sua sabedoria e de fazer a experiência da Sua compaixão e do Seu amor. Contudo, neste mundo pluralista e em constante mudança, muitos muçulmanos, judeus, hindus, budistas, xintoístas, animistas, agnósticos e ateus, ouviram dizer alguma coisa acerca de Jesus Cristo e formaram opiniões ou ensinamentos acerca dele a partir das suas próprias perspectivas.
Há também muitos que, como a multidão nas Escrituras, seguiram Cristo de uma forma ou de outra, mas não acreditam, ou já não acreditam, nele. Há pessoas que ouviram falar de Cristo ou foram testemunhas da fé, da compaixão, do amor de cristãos, mas não reconhecem Cristo. Há os que foram batizados, mas não professam a fé. Há aqueles que foram batizados e catequizados, mas não aceitaram Cristo como o Salvador. Há aqueles que viveram uma vida cristã, mas se tornaram indiferentes ou mesmo hostis à fé cristã. Há aqueles que pareceram abraçar o cristianismo quando as coisas estavam bem, mas o abandonaram quando os cuidados do mundo e outras solicitações lhes apareceram no caminho. Outros falarão de Cristo como de um profeta, um homem santo ou um modelo para os outros, mas o seu ensinamento vai longe demais para eles. Dirão que há uma força que guia a Criação, um poder superior, mas não reconhecem um Deus personificado.
A quem fazer esta pergunta no mundo de hoje?
Um jovem, na casa dos vinte anos, que tinha passado 13 anos em escolas católicas e 5 anos na universidade, ao ser perguntado disse que a sua educação lhe ensinara a procurar toda a informação que pudesse sobre um assunto e só então tomar uma decisão. Ainda está à procura. Ele não acredita em tudo que aprendeu. Ele crê num ser superior e sente uma necessidade substancial de desenvolver a sua própria espiritualidade, mas acha que é difícil dentro da estrutura da Igreja. Ele vê inconsistências entre os ensinamentos da Igreja e o comportamento da Igreja, a maneira como os seus representantes e membros vivem a sua crença. Ele sente que a mensagem de Cristo “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” se encontra mais no grupo dos seus iguais, embora muitos sejam cristãos marginais ou não praticantes. Talvez seja essa a razão pela qual ele não queira, neste estágio idealista da sua vida, fazer parte da Igreja da qual recebeu a educação religiosa. Ele continua a procurar Cristo e a Sua mensagem em outros lugares. O que fazer?
Texto de Meditação para a Reunião do Grupo: Jo 14, 1 - 15
Não fiqueis perturbados. Crede em Deus e crede em mim. Na casa de meu Pai            há muitas moradas; se não, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar.
Quando eu for e o tiver preparado, voltarei para levar-vos comigo, para que estejas onde estou. E sabeis o caminho para ir aonde eu vou. Diz-lhe Tomé:
- Senhor, não sabemos aonde vais. Como podemos conhecer o caminho?         Diz-lhe Jesus:
- Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai se não for por mim.
             Se me conhecêsseis, conheceríeis também o Pai. Agora o conheceis e o vistes.
             Diz Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.
            Responde-lhe Jesus: Há tanto tempo estou convosco e não me conheces,         Filipe? Quem me viu, viu o Pai.  Como pedes que te mostre o Pai?
Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por minha conta: O Pai que está em mim, realiza suas próprias obras.
Crede que estou no Pai e o Pai em mim: se não, crede pelas obras.
Eu vos asseguro: quem crê em mim fará as obras que eu faço, e inclusive outras
Maiores, porque eu vou ao Pai: O que pedirdes em meu nome, eu o farei, para que pelo Filho se manifeste a glória do
Pai. Se pedis algo em meu nome, eu o farei.  Palavra da Salvação
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
  • Vivemos num mundo extremamente conturbado. Percebemos que o homem moderno, correndo atrás de seus interesses pessoais e imediatos, perdeu o sentido do sagrado, do eterno? 
·         O  que precisamos fazer, como viúvas, viúvos e pessoas sós, para mostrar aos que nos cercam o rosto de Jesus como caminho, verdade e vida? 
SEGUNDA  PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé.
1 - Hino a Mazda Ahura Zaratustra (Pérsia, 620-580 AC)
            Quem traçou o caminho ao sol e às estrelas?
            Quem senão tu, por quem a lua cresce e míngua?
            Quem fixou embaixo a terra para que não caia?
            Quem fixou as águas e fez germinar as plantas?
            Quem atrelou ao vento e às nuvens os seus corcéis?
            Quem é o sábio, o criador do pensamento bom?
            Que artista fez a luz e as trevas?
            Quem criou o sono e a vigília?
Quem fez a manhã, o meio-dia e a tarde, para indicar ao homem sensato a sua tarefa?
            O mesmo que primeiro encheu de luz
            Os espaços bem-aventurados
            Foi quem, pela força de seu pensamento,
            Criou a justiça!
            Justiça que regula a consciência boa dos homens.
            Tu o assistes, ó Sábio, pelo teu Espírito,
            Que agora é idêntico a ti Senhor.
            É por teu pensamento, ó Sábio,
            Que te reconhecemos
            Como o primeiro e o último!
            Como o Pai do bom pensamento,
            O incontestável criador da justiça,
            O Senhor dos atos da existência.
2 - Última meditação à véspera da morte
              Savonarola – Florença - 23-5-1498.
            Em ti esperei, Senhor!
            Não serei eternamente confundido.
            O maravilhoso poder da esperança!
A tristeza não permanece em sua presença
Pode ressoar seu fragor,
Os inimigos podem assediar-me,
Nada temo
Pois espero em ti, Senhor!
Tu és a minha esperança,
Meu refúgio forte e inexpugnável,
A esperança abriu-me suas portas.
Não penetrei temerariamente.
A esperança é minha escusa antecipada.
Ela me diz:
“Eis, ó homem, o teu refúgio
abre os olhos e vê:
Deus é teu único asilo”
Somente Ele pode libertar-te,
Somente Ele te consola e te salva!
O coração dos homens está nas mãos de Deus.
Ele o guia segundo sua vontade.
Considera minha bondade e meu amor.
Não seria amigo dos homens
Quem pelos homens se fez homem?
Quem pelos pecadores sofreu a morte?
Na verdade Ele é teu Pai.
Poderia um pai esquecer seu filho?
É Ele quem nos diz,
Pela escritura,
Já que o homem confiou em mim,
Eu o libertarei,
Tira-lo-ei de suas tribulações.
Ó imensa força da esperança,
Como ela se difunde pelo mundo inteiro!
Não serei eternamente confundido!
Poderei sê-lo na terra,
Não na eternidade!
Com teu braço forte
Com teu julgamento eqüitativo,
Liberta-me, Senhor!

            3 -Alberto Einstein (1879-1955)
A opinião comum de que sou ateu repousa sobre grave erro. Quem a pretende deduzir de minhas teorias científicas não as entendeu.
Creio em um Deus pessoas e posso dizer que nunca em minha vida cedi a uma ideologia atéia. Não há oposição entre a ciência e a religião. Apenas há cientistas atrasados, que professam idéias que datam 1880.
Aos 18 anos eu já considerava as teorias sobre o evolucionismo mecanicista e casualista como irremediavelmente antiquadas. No interior do átomo não reinam a harmonia e a regularidade que esses cientistas costumam pressupor. Nele se depreendem apenas leis, prováveis, formuladas na base de estatísticas reformáveis. Ora, essa indeterminação no plano da matéria, abre lugar à intervenção de uma causa que produza o equilíbrio e a harmonia dessas reações dessemelhantes e contraditórias da matéria.
Há, porém, várias maneiras de se representar Deus. Alguns o representam como o Deus mecânico, que intervém no mundo para modificar as leis da natureza e o curso dos acontecimentos. Querem pô-lo a seu serviço, por meio de formular mágicas. É o Deus de certos primitivos, antigos ou modernos. Outros o representam como o Deus jurídico, legislador e agente policial da moralidade, que impõe o medo e estabelece distâncias. Outros, enfim, como o Deus interior, que dirige por dentro todas as coisas e que se revela aos homens no mais íntimo da consciência.
Minha religião consiste em humilde admiração do espírito superior e ilimitado que se revela nos menores detalhes que podemos perceber em nossos espíritos frágeis e incertos. Essa convicção, profundamente emocional na presença de um poder racionalmente superior, que se revela no incompreensível universo, é a idéia que faço de Deus.







CAPÍTULO  X
RIMEIRA PARTE
JESUS E OUTROS CREDOS RELIGIOSOS
Para levar o assunto além do nosso sistema de crença (católica, apostólica, romana), alguns estudiosos ouviram outras opiniões, nos três grupos principais, cujas origens provêm da mesma fonte, que são as tradições cristã, muçulmana e judaica. Por fim foi analisada também a tradição budista.
Foi ouvida uma pessoa nascida e educada na tradição metodista. Ela estendeu o seu conhecimento a outras confissões quando a Igreja Metodista se juntou à Igreja Presbiteriana e à Igreja Congregacional, para formarem a Igreja Unida da Austrália.
Ela chegou a uma visão de Jesus que reflete muito o mundo em que ela vive, o que é contrabalançado por um conhecimento bíblico bastante profundo. Ela não tem dúvidas de que Jesus é o Filho de Deus. Apesar de acreditar na Trindade, não demonstra qualquer interesse no relacionamento entre as Três Pessoas. A Imaculada Conceição da Abençoada Virgem Maria não faz parte da sua crença pessoal, nem a presença real de Cristo na Eucaristia. Ela fica imaginando como seria o relacionamento de Jesus com os seus pais, o papel que eles desempenharam no seu desenvolvimento e a responsabilidade que isso envolveu.
A ressurreição de Cristo é muito importante para ela, “porque sem isso nós não somos salvos. Ele veio para morrer e ressuscitar”. Ela, muitas vezes, se pergunta como Jesus teria enfrentado o fato de saber que morreria com a idade de 33 anos, como isso pode ter afetado a forma como viveu. .
Ela também se questiona quanto ao papel de Judas, vê o seu desempenho na traição de Jesus como ponto de partida para o seu sofrimento, sua morte e ressurreição. Com um marido com uma doença em fase terminal, estas questões são, neste momento, muito importantes para ela.
Um muçulmano explicou que a tradição islâmica, como as tradições judaicas e cristãs, remonta à criação do mundo e à criação de Adão e Eva por Alá. Abraão é reconhecido como o pai da fé. O Alcorão é o cume de todos os Livros anteriores, inclusive o Novo e o Velho Testamentos (as Escrituras hebraicas e cristãs), e a contribuição de Maomé crê-se ter sido revelada pelo Anjo Gabriel. É considerado como o livro mais importante porque contém todas as verdades dos livros precedentes. Maomé é visto como um profeta, como Cristo, e a sua importância vem de ter sido o último dos profetas, nascido em 576 DC.
Os muçulmanos acreditam que Cristo foi apenas um de uma longa linhagem de 124.000 profetas, que a sua mensagem é semelhante à de todos os profetas, e negam a sua divindade. O seu conhecimento da vida de Cristo difere do nosso em alguns aspectos. O Alcorão diz que a mãe de Maria, tendo dado à luz muito tarde e sendo uma mulher santa, dedicou a sua filha a Deus. Quando os anjos visitaram Maria, falaram de Jesus, o Messias, que desde o seu berço se dirigiria à humanidade. Foi ele que em Belém falou aos três magos. Jesus também faria milagres. Quando Jesus necessitou de gente para ajudá-lo, os discípulos concordaram: “Nós seremos os ajudantes de Alá”.
O Alcorão rejeita o conceito da Trindade e rejeita também a crucificação de Jesus, embora confirme a ascensão. “O homem que eles crucificaram apenas se parecia com Jesus, ele foi levado diretamente para Alá”. Desta forma Deus salvou-o do sofrimento. Eles acreditam também que Cristo voltará no último dia.
A tradição judaica também começa com Deus criando o mundo. O povo judeu e a sua fé descendem de Abraão e do seu filho Isaac. Deus prometeu a Abraão “uma terra onde correm o leite e o mel”. Embora através do que conhecemos da História eles nunca tivessem sido os únicos proprietários da terra que habitam, ela permanece crucial para a sua compreensão de si mesmos. Para muitos deles, o verdadeiro Israel não pode existir até que seja fundado pelo Messias.
Um Rabino perguntado sobre quem foi Jesus disse que Jesus era reconhecido na sua tradição; eles (Judeus) O vêem como um homem bom, um profeta, um dos muitos naquele tempo. Embora o povo judeu tenha o forte sentimento de ser um povo, formaram-se comunidades diferentes. Nos princípios do século XIX, alguns membros quiseram atualizar a tradição e resultou o Movimento da Reforma. O Movimento Ortodoxo-Judaico mantém-se fiel às práticas que eram comuns no tempo de Jesus. O estudo e a compreensão dos 613 preceitos da Tora são essenciais para a santidade.
Uma budista que com o seu marido é chefe no templo budista local, acredita que Cristo foi um grande mestre e filósofo para o povo que viveu em torno do Mediterrâneo. Ele foi como Buda (563 AC) na Índia e Confúcio (551 AC) na China. Era necessário que esses “líderes” estivessem em várias partes do mundo, porque as suas diversas partes estavam isoladas. Todos esses homens eram representantes de Deus. Há um só Deus para todos os homens, mas os homens O vêem de formas diferentes e O encontram através de diferentes mestres. Os filósofos ensinam-nos a olhar para a energia interior. Todos nós temos uma cruz que se encontra dentro de nós. Necessitamos aprender a reconhecer a nossa própria verdade. Buda disse: “Não a encontrarás fora de ti, deve vir de dentro”.
Os Budistas acreditam, ainda que, na meia idade, é nossa obrigação encontrar essa disciplina. Com paz interior e energia necessitamos construir a harmonia e estendê-la às nossas famílias, à nossa comunidade, à nossa nação e ao mundo. Quando não procuramos esta verdade interior, mas o poder e a fama, o mundo acaba prejudicado. Não se encontram respostas na guerra e na dominação. O mundo necessita de dirigentes como Cristo, que compreendam o poder da harmonia.
Texto  de Meditação para a Reunião do Grupo: Atos 9, 1-9
            Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Ele            apresentou-se ao sumo sacerdote, e lhe pediu cartas de recomendação para as        sinagogas de Damasco, a fim de levar presos para Jerusalém todos os homens e       mulheres que encontrasse seguindo o caminho.
            Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu       repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu. Caiu por terra, e ouviu            uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Saulo           respondeu: “Quem és tu, Senhor?”. A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo. Agora, levante-se, entre na cidade, e aí dirão o que você           deve fazer”.
            Os homens que acompanhavam Saulo ficaram cheios de espanto, porque         ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo se levantou do chão e abriu os     olhos, mas não conseguia ver nada. Então o pegaram pela mão e o levaram para      Damasco. E Saulo ticou três dias sem poder ver, e não comeu nem bebeu nada.
            Palavra do Senhor.


Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
As pessoas de hoje devem poder fazer a experiência do Cristo por inteiro: a sua encarnação, seu nascimento, sua vida, seus ensinamentos, seu sofrimento, sua morte, ressurreição e glória, tomando como exemplo a conversão de Paulo, o Apóstolo por excelência.   Pensemos juntos:
- Como viver a nossa Religião no mundo conturbado dos dias de hoje?
- Devemos ignorar, discutir ou aceitar credos religiosos diferentes do nosso?
- Como melhorar nossa fé e nossa vivência cristã?
SEGUNDA PARTE:  Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
1 - Pe. Nilton César Boni, cmf
            Tão fecunda e clara como a chuva que cai,
            Tão doce e amarga como o joio e o trigo,
            Tão preciosa e santa como as essências da criação,
            Tão Verbo, toda pura,
            Uma planta de vivo esplendor que ladeia os corações,
            Uma lição de esperança para quem busca a luz,
            Um caminho de alegria que insufla a vida,
            Tua Palavra é assim: calma e milagrosa.
            Como o  girassol que acompanha o brilho do dia e se reveste da graça do céu,
            Tua Palavra é assim: no centro do tempo, no início da concepção e no fim como           ponte para a eternidade.
            Presente está o Verbo.
            Esta Palavra vem até a escuridão e semeia a graça.
            Prazer e simplicidade são as cores de Deus.
            E o Verbo se fez um de nós.
            A força da Palavra reagiu aos acontecimentos.
            Nada agora é tudo.
            Ficou para trás o tempo da promessa.
            Deus se realizou. Completou o que faltava nos imperfeitos.
            A Palavra trouxe força.
            Irrompeu um grito da cruz e, do lado aberto do Verbo, nasceu o Espírito, a           fortaleza, a ação do Amado.
            Palavra que gira, que gira em torno do sol. Do nosso sol. Da nossa fonte e nos anima. És o centro onde a semente está.
            Palavra fecunda e clara como a chuva que cai.
            Tua Palavra é assim. . . deixa Vida ... deixa Deus.
            Palavra de Deus, proclamada, vivida, colhida.
            Tua Palavra é assim: divina em mim, humana em Deus.
            2 - Urbano Zilles – Fontes de Catequese: A Hospitalidade
            A hospitalidade já era tida como uma das virtudes mais nobres da antiguidade,             pois o peregrino estava sob a proteção da divindade.
            O Antigo Testamento também conhece e cultiva a hospitalidade. Os  Evangelhos         apresentam repetidas vezes a obra salvifíca, a vinda do Reino de Deus em Jesus       na forma de convite.
            Jesus convida os homens a participar da ceia. Nela é, ao mesmo tempo,            hóspede e hospedeiro. Serve a seus próprios hóspedes, pois ele veio para     servir e não   para ser  servido.
            A hospitalidade expressa de Áquila e Priscila possibilitara ou facilitara o trabalho          missionário de Paulo em Corinto. Paulo trabalha com anfitriões. Todos têm o   dever de cuidar e zelar de maneira particular pela hospitalidade, dentre elas as     Viúvas e os “episcopos” (hospitaleiros por excelência).
            Na Carta aos Romanos, São Paulo, dentre outras coisas, faz a seguinte exortação:
                        “Sede diligentes sem fraqueza, fervorosos de espírito, dedicados ao                                 serviço do Senhor, alegres na esperança, pacientes na tribulação,                                    perseverantes na oração, socorrendo os santos nas suas necessidades,                         exercendo a hospitalidade” – Rm 13, 11-13
            3 - Irmão Nery - fsc (catequeta): Conversão, para conhecer a Cristo
            A realidade de nossa Igreja Católica é que temos graves deficiências em relação         a nossa fé, a saber:
            a) Não somos convertidos: A fé não nos agarrou por dentro, não se       transformou em uma natureza em nossa natureza, não impregnou nossa vida,     nossos sentimentos, nossa razão, nossos relacionamentos, nosso trabalho,            nosso compromisso com a sociedade.
            b) Não temos convicções sólidas a partir da fé: Aderimos facilmente a            propostas contrárias ao Evangelho e à moral cristã. Somos indiferentes ao caos      causado pela injusta organização social geradora e multiplicadora de pobreza,    injustiça e exclusão.
           c) Somos ignorantes sobre nossa fé: Pouco conhecemos de Bíblia, Tradição,           Magistério, Doutrinas e Ensinamentos Sociais de nossa Igreja. Não sabemos dar      as razões de nossa fé e de nossa esperança.
            d) Somos simples (infantis) em nossa fé: Colocamos Deus a nosso serviço, a           serviço de nossas necessidades. Somos nós que devemos estar a seu serviço, à     disposição de sua santa vontade. Corremos atrás de superficialidades e coisas          secundária, quando o principal é o engajamento na Igreja e o compromisso em    nome da nossa fé, mesmo que ainda frágil e vacilante.
          Conclusão:  Temos, conseqüentemente, que nos converter a Jesus, à Igreja e à            Missão, como cristãos  batizados e compromissados com a construção do Reino            de Deus. Como fazer isso? Cada qual deverá procurar suas próprias respostas.
           
           








CAPÍTULO XI
PRIMEIRA PARTE
“PARA NÓS, QUEM É JESUS?”
Extraído de: Sílvia e Francisco de Assis Pontes
SR Brasil
            Textos-base:  Marcos 8, 27-29 - Lucas 9,18 -  Mateus 16, 13                  
Introdução
Jesus faz uma pergunta direta e clara a seus discípulos, e essa pergunta permanece viva em suas cabeças, mas vai voltar ainda mais forte depois da sua morte-ressurreição. Era preciso afastar qualquer equívoco na maneira de os discípulos considerarem Jesus. “E vós? Quem eu sou para vós?”
Ainda hoje, a resposta que cada discípulo possa dar será decisiva para se conferir a autenticidade da sua vida cristã.
O contexto dessa pergunta
Era o tempo em que Jesus devia anunciar a seus discípulos a sua paixão. Era chegada a hora suprema de sua missão. Ele não viera ao mundo só para instruir seus discípulos, nem apenas para revelar-se a eles como o Messias, mas viera, sobretudo, para lhes abrir a porta que os conduziria à ressurreição, a uma vida nova. Assim, não bastaria aos discípulos terem Jesus como mestre, como modelo a ser seguido. Era preciso reconhecê-lo como o Messias prometido. Era preciso reconhecer Jesus como HOMEM/DEUS, do qual dependemos totalmente, a fonte verdadeira de todo o nosso bem.
Era preciso, assim, que os discípulos se imbuíssem não só da crença, mas que eles tivessem a clara noção de que não haveria salvação se a morte não fosse vencida pela ressurreição de Jesus. Era necessário que se engajassem no compromisso dessa pessoa, que não hesita em ir até as últimas conseqüências de um amor sem fim.
Que morte temos de vencer hoje?
Se Jesus continua fazendo hoje essa mesma pergunta a todos nós, o que temos de aprender quanto à superação da morte? Como vencer a morte?   Só se começa a assumir a vitória sobre a morte quando Jesus mostra o caminho da cruz. É o próprio texto que nos diz: “O Filho do Homem deve sofrer e ser rejeitado pelas autoridades”.
Deveremos escolher entre SERMOS SERVIDOS ou SERVIR, entre TIRAR PROVEITO ou SACRIFICAR-NOS PELOS OUTROS, entre JUNTAR ou DIVIDIR. Todos estes valores, queridos por Deus, foram condenados à morte pela ideologia secular do mundo.
Num mundo que prega o individualismo e a competição, a união de esforços para um projeto comum de vida parece apenas uma utopia.
Só a fé ou o amor?
(Gálatas 3, 7-8; João 21, 15-17; João 6, 66-69)
            “Quem quiser ser meu discípulo tome cada dia sua cruz”.
O simples fato de querer viver sem riscos distancia-nos do caminho de Jesus. Não há ressurreição nem vida sem passar antes pelo mesmo caminho da cruz.
Às vezes, somos tentados a ter fé em Jesus apenas para fazer dele o nosso refúgio, ter a garantia do nosso bem pessoal e esquecemos que não basta a fé. Jesus prefere o Amor.
“Pedro, tu me amas?” Por três vezes a pergunta remói o coração daquele pescador rude. A tristeza que decorre da insistente pergunta transforma-se na certeza do amor sem limites e sem perguntas: “Tu sabes, Senhor, que eu te amo”.  E Jesus prossegue pedindo ainda mais: “cuida das minhas ovelhas”.
Jesus não tem nada a ver com aqueles que querem salvar a si próprios. Ele não tem nada a ver com aqueles que se preocupam apenas com “evitar os pecados” enquanto, ao mesmo tempo, continuam a perseguir suas próprias ambições, e procuram aproveitar-se ao máximo das benesses da vida.
Na fidelidade às exigências concretas do Evangelho
A palavra fidelidade está muito desgastada pelo mundo de hoje, procura relativizar os valores evangélicos. Nossa vida cristã freqüentemente é tentada a entrar nesse processo de relativização. Surge o perigo da incoerência entre a fé e a vida.
Abraçamos a fé em Jesus, mas estamos longe de manter a fidelidade a sua pessoa. A quebra da fidelidade, na linguagem bíblica, equivale ao adultério. No Antigo Testamento, encontramos dezenas de situações em que o rompimento da aliança entre Deus e a humanidade é caracterizada como adultério. Nos evangelhos, vemos Jesus dirigir-se aos fariseus como geração adúltera, porque não se mantêm fiéis à vontade de Deus.
A verificação da autenticidade da vida cristã passa necessariamente pelo crivo da fidelidade. Não há como ser fiel em parte, assim como não há meia-mentira ou meia-verdade. O problema está em aceitar Jesus por inteiro, aceitar sua Palavra por inteiro, em vez de tentar simplesmente acomodá-la a nossa vida, aos nossos interesses, ao nosso pensar.
Jesus é radical naquilo que é essencial: “Queres ganhar a vida? Então deixa-te morrer!” Queres me seguir? Então deixa tudo, pai, mãe, filhos, bens, convicções pessoais, modo de viver, e toma a tua cruz.
Que o amor é o primeiro valor não podemos ter a menor dúvida. É a partir desta convicção que seremos capazes de assumir as situações de riscos, para morrer e ressuscitar com Jesus: falar pelos que não têm voz nem vez, anunciar a paz num mundo de guerras, ser solidário com os que estão à margem dos caminhos, defender a vida. Poderemos, como cristãos, limitar-nos às nossas aconchegantes reuniões espirituais, sem deixar que nossos corações sejam arrebatados pelo fogo do amor de Deus, que nos pede respostas aos desafios da vida e do mundo?  Somente o sacrifício de nós mesmos poderá ser plenamente eficaz para fazer florescer o amor no meio do mundo.
E vós, quem dizeis que eu sou?
É bem verdade que Jesus já não está historicamente presente para nos fazer essa pergunta, e assim não poderemos ouvi-la de sua própria boca. Mas iremos necessariamente ouvi-la, de uma forma ou de outra, interpelados por outrem ou por Ele mesmo no silêncio do coração. Em alguma encruzilhada do nosso caminho em busca da santidade, a pergunta soará solene: E para você, cristão, quem eu sou?
Depois de 2000 anos de cristianismo, a fé que nos foi transmitida e vivenciada por todos os que nos antecederam, o amor derramado pelo sangue dos mártires, o exemplo dos santos, a tradição da Igreja e a experiência pessoal de cada um de nós, permitem-nos responder com a mesma convicção de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”.
Mas como? Acaso não somos nós que pomos nossa segurança no ganho do trabalho, nos bens materiais acumulados? Onde está o nosso tesouro? Nos grandes supermercados ou lojas de departamentos, nos sonhos do consumo veloz e no atrativo de cada novidade inventada pela tecnologia?
Jesus espera que a nossa resposta a Ele seja a entrega da vida comprometida com Ele em tudo, na missão de transformar o mundo pelo exercício da verdade, pela prática da justiça e, sobretudo, pela partilha do amor.
A solidariedade de partilha e de comunhão
O Papa João Paulo II desafia os evangelizadores a construírem uma espiritualidade de comunhão. E na tentativa de nos articularmos como Movimento dentro da nossa Igreja, é fundamental rever um dos aspectos da nossa mística: a entre-ajuda dentro e fora das C.N.S.E.
Podemos ver um imenso campo de possibilidades concretas de atuação, a partir do simples desejo de querer estar ao lado dos que precisam de algum socorro, começando na família, entre amigos, na paróquia e até aonde Deus nos quiser levar.
Conclusão: Senhor, eu quero ver o Teu rosto
“Jesus, não estivemos contigo nos caminhos da Samaria ou de Jerusalém. Não te ouvimos no templo ou nas sinagogas. Não navegamos contigo pelo mar da Galiléia. Nem nos sentamos na areia da praia para te ouvir pregar.
Não vimos a tua expressão enquanto olhavas para a jovem mulher que lavava teus pés com suas lágrimas, e os enxugava com os seus cabelos.
Não fomos testemunhas de tas curas em favor do cego de Jericó ou do paralítico que clamou por tua piedade.
Queremos, no entanto, ver o teu rosto que revela o amor do Pai. Queremos ouvir-te falar do Reino de Deus, ensinando os humildes e pequenos a lhes dizer que eles são os preferidos.
Mas não te vemos, nem te ouvimos, ó Senhor!
Mas sabemos que podemos ver-te no rosto dos que sofrem, dos que batem à nossa porta, dos que clamam por ajuda, dos que passam sozinhos pelos caminhos da vida”.
O Papa João Paulo II, em Novo Millenio Ineunte, nº. 49, lembra-nos que “Se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-lo no rosto daqueles com quem ele mesmo quis identificar-se: ‘pois eu estava com fome e me deste de comer’... (Mt 25,35-46)”. 
“É só nestes rostos, Senhor, que podemos sentir o olhar do teu amor, a ternura de tua alma, o amor de Deus.  Ajuda-nos a ver o teu rosto, Senhor!”
Texto de Meditação para Reunião do Grupo: Atos 10, 34 - 48
Discurso de Pedro
Compreendo verdadeiramente que Deus não é parcial, mas aceita quem o respeita e procede honradamente, de qualquer nação que seja.
Ele comunicou sua palavra aos israelitas e anuncia a boa notícia da paz por meio de Jesus, o Messias, que é Senhor de todos.
Vós conheceis o que aconteceu por toda a Judéia, começando pela Galiléia, a partir do batismo que João pregava. Deus ungiu com Espírito Santo e poder a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os possuídos pelo diabo, porque Deus estava com ele. Nós somos testemunhas de tudo o que fez na Judéia e em Jerusalém. Mataram-no, pendurando-o num madeiro. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia e fez que aparecesse, não a todo povo, mas às testemunhas designadas de antemão por Deus; a nós, que comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou da morte. Encarregou-nos de pregar ao povo e testemunhar que Deus o nomeou juiz dos vivos e mortos. Todos os profetas dão este testemunho a respeito dele: que em seu nome os que nele crêem recebem o perdão dos pecados.
Pedro não acabara de falar, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os ouvintes. Os fiéis convertidos do judaísmo se assombravam ao ver que o dom do Espírito Santo era concedido aos pagãos também, pois os ouviam falar em línguas e exaltar a Deus. Então Pedro interveio:
- Pode alguém impedir que se batizem com água os que receberam o Espírito Santo como nós?
E ordenou que os batizassem invocando o nome de Jesus, o Messias. Eles lhe pediram que ficasse alguns dias..
Palavra do Senhor
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo    
1 – “Quem quiser ser meu discípulo tome cada dia sua cruz”. Como você entende, no seu estado de vida,  essa  mensagem evangélica?
2 – A ideologia secular do mundo procura relativizar os valores evangélicos. Que atitudes devemos  tomar para que nossa fé não esmoreça?
3 – Depois de estudarmos o tema “A descoberta do Cristo” procuraremos responder a pergunta Jesus Cristo: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé1
            A herança dos mártires
Eu mesmo vivi, na prisão, o sofrimento da Igreja. Percebia o tempo passar, dia após dia, sem ver o fim. Questionava-me como o profeta Isaías: “Sentinela, quanto resta da noite?” (Is 21,11), Começava, naquele momento, a entender melhor o significado do martírio. Não aquele cruento – embora isso também fosse possível no meu caso -, mas o martírio como uma vida a que não se põe limites – nem mesmo o da sua conservação – por Deus, pela fidelidade à unidade e à comunhão da Igreja, para o serviço do Evangelho.
O cristão não despreza a vida. Eu relembrava, na prisão, os dias felizes do meu serviço pastoral enquanto padre e enquanto bispo; recordava os católicos das dioceses onde eu estivera, os meus confrades, os meus amigos, os meus parentes. Que prazer teria sido revê-los!
Mas a minha fé não podia ser mercantilizada. Não podia trocá-la por coisa alguma, nem mesmo por uma vida feliz. Parecia-me entender um pouco mais o martírio: não estabelecer limites ao amor para com Deus, muito menos o limite natural da salvação de si mesmo, da própria vida, da própria felicidade. E, naqueles momentos, lembrava-me de muitos cristãos prisioneiros, sofredores, deportados. Pensava nas perseguições, nas mortes, nos martírios ocorridos durante 350 anos no Vietnã que deram à Igreja muitos mártires: cerca de 150 mil.
Eu mesmo acredito que minha vocação sacerdotal tenha sido misteriosamente – mas realmente – ligada ao sangue desses mártires, derramado no século passado, enquanto anunciavam o Evangelho e permaneciam fiéis à unidade da Igreja, malgrado as ameaças de morte e as violências.
Recordo o testemunho do meu bisavô paterno.  Freqüentemente ele me contava como os membros da sua família tinham sido forçadamente separados e colocados sob a guarda de várias famílias não-cristãs, para levá-los a perder a fé, enquanto seu pai tinha sido posto na prisão. Assim, o meu bisavô, ainda com a idade de 15 anos, diariamente fazia o percurso de 30 km para levar a seu pai um pouco de arroz e de sal, economizados daquele pouco que recebia da família com a qual ele vivia e trabalhava. Saía de casa às 3 horas da manhã para retornar a tempo para o trabalho. Da parte do meu avô ocorreu algo mais dramático ainda: em 1885, todos os paroquianos foram queimados vivos na Igreja, à exceção dele, que naquela época estudava na Malásia.
Creio que a fidelidade da Igreja vietnamita se explica com o sangue daqueles mártires. As vocações sacerdotais e religiosas que enriquecem a Igreja no Vietnã nascem da graça do sofrimento. Os mártires ensinaram-nos a dizer sim. Um sim incondicional e sem limites ao amor de Deus. Mas eles ensinaram-nos também a dizer não às bajulações, às concessões, às injustiças, mesmo que com o objetivo de salvar a própria vida ou de ter um pouco de tranqüilidade...
É uma herança, mas uma herança deve-se sempre aceitar. Não é automática ou natural. Pode ser rejeitada. A herança dos mártires não se trata de heroísmo, mas de fidelidade. A fidelidade amadureceu voltando o olhar para Jesus, modelo de vida cristã, modelo de cada testemunha, modelo de cada mártir.
O Cardeal Van Thuan (1928-2002) foi uma testemunha viva da esperança nos nossos tempos. Um dia, depois que Madre Teresa havia me falado da pobreza absoluta que ela quis para a sua Congregação, disse-lhe eu:
- Mas então para poder manter toda a atividade e as obras que suas irmãs realizam no mundo precisa-se de milagres.
- “Exatamente” disse Madre Teresa sorrindo diante da expressão que via no meu rosto.
“Todo dia Deus faz para nós verdadeiros milagres. Nós os constatamos concretamente. Se não fossem esses prodígios cotidianos nós não poderíamos ir adiante, não poderíamos fazer nada.
Madre Tereza nunca gostou muito de falar. Nem em público, nem em particular. Em todos os encontros que tivemos com ela, constatei que a conversa sempre lhe era muito fatigante. Gentil, doce, à disposição, estava sempre pronta a responder qualquer pergunta, mas com frases curtas, incisivas, sintéticas. Se, porém, o assunto era a bondade de Deus, o amor de Jesus para com a humanidade, as maravilhas da Providência, tornava-se bastante loquaz. Então falava com alegria.
“A Providência provê generosamente todo dia para mim, para minhas irmãs e nossos assistidos. O faz através de industriais, entidades, empresas, companhias petrolíferas, governos. Mas o faz sobretudo através das pequenas ofertas das pessoas que vivem com modestos recursos econômicos. E são essas ofertas que têm maior valor, porque, para fazê-las, as pessoas enfrentam sacrifícios e, desse modo, seu gesto é um autêntico ato de amor.
A Providência, continuou Madre Teresa, nunca nos abandona. Minha obra foi vontade de Jesus e Ele deve pensar em levá-la adiante. A Providência nos faz saber, continuamente, com que amor Jesus nos acompanha e ajuda”.
Nas nossas casas, com tudo o que serve para manter as pessoas que nos pedem ajuda, estamos sempre em estado de emergência. Nenhuma irmã responsável pelo andamento da casa poderia ter um sono tranqüilo se não tivesse uma imensa fé em Deus. Quase nunca temos o necessário para viver uma semana e, às vezes, nem mesmo o necessário para a noite daquele dia. Mas sempre, muitas vezes no último instante, chega a solução. O Senhor inspira as pessoas mais diferentes a nos trazer, pelas mais variadas razões, a ajuda que para nós é vital. Se não chegasse essa ajuda, ai de nós!
Em Calcutá, cozinhamos todo dia para nove mil pessoas. Uma manhã, uma irmã veio dizer-me que não tínhamos mais nada na despensa. Era uma quinta-feira. Anunciava-se um terrível fim-de-semana. Era a primeira vez que eu me encontrava diante de um imprevisto como aquele. “Devemos avisar aos nossos assistidos”, disse a irmã. “Não, esperemos, respondi. Nesse meio tempo, vá à Igreja apresentar a questão a Jesus”, disse-lhe eu. Orei também e fiquei à espera dos acontecimentos. Na sexta-feira pela manhã chegou um enorme caminhão carregado de pão, geléia, leite. Eram provisões destinadas à merenda escolar da cidade. Mas, naquela manhã, o governador tinha decidido manter fechadas as escolas e todas aquelas provisões nos foram enviadas. Procurei saber porque as escolas tinham sido fechadas naquela manhã, mas nunca consegui apurar o fato. Creio que Deus interveio para nos ajudar. Na verdade, por dois dias nossos assistidos puderam comer a vontade.
Em uma ocasião, as irmãs ficaram sem lenha para cozinhar. Sobre o fogão havia uma grande panela de curry. Como de costume, mandei algumas irmãs rezarem. Depois de algum tempo, tocou a campainha. Era um benfeitor trazendo um carregamento de lenha...
Muito ficam maravilhados ouvindo o relato de fatos desse tipo, mas não há nada de extraordinário: é tudo simples, lógico. Se vejo um pobre, sinto grande desejo de ajudá-lo. Quão maior deve ser o desejo de Jesus de ajudar-nos nas nossas dificuldades. Basta acreditar cegamente no seu amor para poder ser, todo dia, testemunha dos seus milagres      
.Renzo Allegri
Do livro: Teresa dos Pobres






CAPÍTULO  XII
PRIMEIRA PARTE
JOÃO BATISTA, PARA UNS ELIAS, OU PARA OUTROS UM PROFETA
            Extraído de:José e Maria Berta Moura-Soares
SR Portugal
Introdução
Convidamos-vos a fazermos juntos este itinerário de esperança que nos levará a um encontro mais profundo com Cristo Jesus, nosso Deus e Senhor das nossas vidas.
Não vimos aqui recordar um passado,  mas celebrar o eterno encontro de Deus com o Homem porque sabemos que quem se cruza com Ele reacende a esperança e encontra o sentido e a exigência da vida.
Interessa, por isso, perceber o que pensa esta multidão imensa que sabe que Jesus existiu. Muitos até se dizem dele, mas não O seguem nem O celebram regularmente como presente das suas vidas. Consideram Jesus como a continuação do passado e não conseguem descobrir nele a novidade, a originalidade e a salvação.
  1. Em Cesaréia
Em Cesaréia de Filipe, assistimos a um dos diálogos mais intensos e mais íntimos entre Jesus e os discípulos. Cesaréia torna-se momento único na estrutura dos Evangelhos por ser, simultaneamente, ponto de chegada duma experiência com Jesus, e ponto de partida para o aprofundamento dessa mesma experiência. É aí que Ele pergunta quem é e os discípulos respondem: “João Batista, para uns Elias, ou para outros um profeta”.
Associam Jesus às grandes personagens que devem preceder à vinda do Messias. É isso que Ele é para o povo: um precursor, nada mais. O verdadeiro Messias deverá ainda vir. Esta era e é uma tentação permanente também para aqueles que reconhecem em Jesus o grande mestre que pregou o amor, a fraternidade, a paz e a justiça. E que se sentem já fascinados por Ele. É uma personalidade deslumbrante, o profeta dos pobres, um revolucionário do amor e da justiça, mas identificam-no ainda como um messias triunfalista que vinha e que vem para libertar o povo.
Jesus não é nada disso e quer ir mais longe. Por isso provoca o diálogo, lança a pergunta, pergunta que vai exigir uma resposta muito pessoal sobre Aquele que têm diante dos seus olhos.
  1.  No mundo de hoje
O interesse por Jesus está para além da Igreja institucional. Hoje, num ambiente aberto, Cristo, no dizer de alguns teólogos, tornou-se um “patrimônio comum”. Mas por que ainda hoje nos interessamos por Cristo? Quem é Jesus para os homens que vivem ombro a ombro conosco?
Há uma articulação entre os anseios do homem e a questão de Jesus. No fundo, o mistério do sofrimento e a procura de felicidade são ainda uma realidade bem visível. Hoje a capacidade que o homem tem de superar o absurdo, leva-o a definir certos ideais, a projetar neles o sentido da sua existência e a apelar para figuras que o ajudam a ultrapassar os limites. Uma dessas figuras é Jesus Cristo, porque viveu uma situação histórica como a nossa e, por isso, pode fascinar e alicerçar uma decisão.
Em vida, Jesus apareceu como sinal de contradição e pedra de escândalo. A sua pessoa e o prolongamento da sua missão na Igreja suscitaram sempre aceitação ou recusa, perseguição ou seguimento, até ao testemunho incondicional de vida. Praticamente ninguém que O tenha conhecido fica indiferente a Ele, porque seduz e atrai.
Tal como ontem, também os homens de hoje têm a sua opinião sobre Jesus. E continuam a dar a mesma resposta de há dois mil anos, reduzindo Jesus ao reconhecimento como modelo do gênero humano, como um grande profeta ou, na melhor das hipóteses, uma das vias de acesso a Deus.
Se há, por um lado, um interesse pela figura de Jesus, sabemos, contudo, que é crescente a tentativa de construir um mundo sem Deus e sem Cristo, tomando o homem como o centro absoluto de toda a vida, e vivendo este como se Deus não existisse. Assiste-se a claros sinais de perda da esperança, traduzidos através de formas preocupantes de uma “cultura de morte”, que se manifestam de múltiplas e variadas formas, mas, em especial, no medo em relação ao futuro, no vazio interior e na perda do significado da vida. Sentimo-lo nas graves crises familiares e no esmorecimento do próprio conceito de família, onde assistimos à dramática diminuição da natalidade, à queda das vocações, à recusa de tomar decisões definitivas na vida, inclusive no matrimônio, ao aumento da solidão, à instabilidade das relações afetivas, à perversão do coração.
3. Falsos profetas
Em cada dia e a cada hora chega até nós a voz do Senhor, por meio de pedidos que nos fazem, desafios que enfrentamos, gritos de famílias em sofrimento, que exigem de nós uma decisão imediata.
A este desejo, procura-se dar respostas, muitas das vezes efêmeras e frágeis. Assim surgem os falsos profetas do mundo contemporâneo, que influenciam hoje o nosso pensamento: os políticos que representam as nações fortes e poderosas; os generais que comandam os grandes exércitos; os proprietários das multinacionais que gerenciam capitais imensos e condicionam a vida do mundo; as estrelas do mundo da música, do cinema e da moda, que proclamam a vitória do imediatismo; os detentores de riquezas que exaltam o “ter” em relação ao “ser”.
Negando Deus, estes falsos profetas fazem identificar a esperança “com o paraíso prometido pela ciência e a técnica, com as mais variadas formas de messianismo, com a felicidade de natureza hedonista oferecida pelo consumismo, com a busca de formas esotéricas de espiritualidade”.
O reconhecimento do “Filho do Homem” não pode acontecer num ambiente em que se vive exclusivamente de fora para dentro, pois exige uma dimensão espiritual. A abertura a essa dimensão espiritual é paradoxal nos nossos dias, porque é, ao mesmo tempo, fraca e forte. Por um lado, aos homens fecham-se à transcendência, satisfeitos com o seu quotidiano, com as suas necessidades, prazeres e certezas. No entanto, quando são confrontados com os seus limites na forma da doença, da desilusão afetiva, da morte..., a sua segurança vacila e surgem os sinais mais ou menos visíveis de um apelo a algo que o supera, a uma Transcendência mais ou menos difusa.
  1. Denúncia profética
Ninguém pode viver sem perspectivas de futuro e a Igreja tem para oferecer ao homem o bem mais precioso que ninguém mais pode dar: a fé em Jesus Cristo, fonte de esperança que jamais desilude. Só nele se encontra a salvação.
Nesta reflexão, descobrimos a Igreja constituída como uma comunidade de profetas, cuja profecia se associa à sua missão de anúncio da Boa Nova com duas preocupações constantes: a denúncia dos tempos de crise em que vivemos e o testemunho dos valores em que se acredita e se propõe como estilo de vida.
Neste contexto, a família cristã, na sua fidelidade, assume também a qualidade de denúncia profética e de verdadeiro testemunho: é sinal de um mundo novo, traçando na sociedade um rastro de luz, semente da esperança. Só a família, concebida como comunhão do amor e de vida, humaniza a sociedade.
4. Testemunho
A necessidade e a urgência do testemunho é uma condição inerente a todo cristão, que lhe advém pelo Batismo e pela sua adesão a Cristo. Mas é, ao mesmo tempo, uma exigência do mundo de hoje. A nossa época tem grande dificuldade em confrontar-se com a profecia, sobretudo quando se limita ao domínio das idéias, das utopias. A sociedade atual é pouco sensível a teorias, exige demonstrações práticas por um testemunho coerente: exige-se que se saiba dar, mais pela vida do que pelas palavras, as razões da sua esperança.
Entre muitos, não podemos deixar de citar alguns profetas do nosso tempo que edificaram a sociedade pelo seu testemunho: João XXIII, mostrando ao mundo a caridade no acolhimento universal, a humildade na alegria; Madre Teresa, servindo os mais pobres de todos com total dedicação; Padre Caffarel, que soube levar milhares de casais a descobrir que Cristo caminha com eles no dia a dia do seu casamento e que foi, como lhe chamou o Cardeal Lustiger, “um profeta do nosso tempo”.
Ao anunciar esta realidade, os cristãos, profetas para o seu tempo, apresentam uma nova escala de valores e maiores aspirações e anunciam novos tempos com a alegria da sua esperança, mostrando que ela é possível.
Este é o convite que a Igreja nos faz hoje e sempre. Partamos, então, como verdadeiros profetas, anunciando a Boa Nova da salvação, esperando que o Senhor estimule os nossos passos neste difícil empreendimento e que o fortaleça com êxito crescente.


6. Cristo, Fonte de Esperança
É o Senhor que nos convida. Testemunhemos sem medo, dinamizados pelo Espírito, fortalecidos pela oração, levando conosco Nossa Senhora.
Maria repetir-nos-á incansavelmente: “Fazei tudo que Ele vos disser”. Aprendamos com ela a estar atentos e disponíveis à ação do Espírito de Deus.
Como Maria, somos convidados, na fidelidade ao espírito profético do nosso Movimento, a nos abrir ao Espírito para conhecermos o verdadeiro rosto de Cristo e para que saibamos, com fidelidade e um novo ardor, ensinar aos homens do nosso tempo a reconhecer Jesus.
Por revelação do Espírito Santo, confessamos hoje que, para nós, Jesus é muito mais que “João Batista, Elias ou outro profeta”. Ele é o “Cristo”, o nosso Deus, a nossa esperança, a única fonte capaz de saciar a nossa sede de infinito e fome de esperança, o único Salvador, ontem, hoje e por toda a eternidade.
Sabemos que responder-lhe será comprometermo-nos, implica dar-lhe a conhecer os valores que agitam os nossos corações, não dando ao tempo o lugar que ele não tem. Temos de viver a vida como se fosse o espaço de que precisamos para fazer o que ELE nos pede. Nós já percebemos e sentimos que é breve o tempo e curta a vida para querer fazer dela outra coisa que não seja a Sua Vontade e que será a Sua Glória e a nossa Salvação.
Texto de Meditação para a Reunião do Grupo: Mt 15, 13 - 30
A Confissão de Pedro
Quando Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, interrogou os discípulos:
- Quem dizem os homens que é este Homem? Responderam:
- Uns que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou algum outro profeta.
Disse-lhes: - E vós, quem dizeis que eu sou? Respondeu Simão Pedro:
- Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo. Jesus lhe replicou:
- Feliz és tu, Simão, filho de Jonas! Porque não foi alguém de carne e sangue que te revelou isso, e sim meu Pai do céu. Pois eu te digo que tu és Pedro e sobre esta Pedra construirei minha igreja, e o império da morte não a vencerá. A ti darei as chaves do reino de Deus: o que atares na terra ficará atado no céu; o que desatares na terra ficará desatado no céu.
Então lhes ordenou que não dissessem a ninguém que o Messias era ele.
Palavra da Salvação:
Para reflexão e Troca de Idéias no Grupo
1 – Se, por um lado, são muitos os que desejam seguir o Cristo como “Caminho, Verdade e Vida”,   por outro temos a impressão que o mundo todo age como se Deus não existisse.   Como devemos agir, como viúvas, viúvos e pessoas sós, no meio em que vivemos?
2 – Cite alguns dos falsos profetas do nosso tempo.
3 – Qual é a missão profética da Igreja dos nossos dias?
SEGUNDA PARTE: Leitura complementar
Pequenos textos que alimentam a nossa fé
1 – uma história – uma lição
Vivia, certa vez, nas proximidades do rio Indo, um persa chamado Ali Hafed. Possuía uma vasta fazenda com jardins, plantações de trigo, animais domésticos e tudo mais. Tinha dinheiro aplicado. Era, em suma, um homem rico e satisfeito.
Um dia, visitou-o um monge budista e, após o jantar, começou a contar-lhe como esse mundo é feito. Entre outras coisas falou-lhe de diamantes. Disse-lhe que um diamante é a luz do sol congelada e que se ele possuísse um diamante do tamanho do seu polegar poderia comprar todo o condado; e se possuísse uma mina de diamantes poderia instalar seus filhos nos tronos do mundo. Ali Hafed ouviu tudo isso e foi para a cama um homem pobre. Não tinha perdido nada, mas tornara-se pobre porque se tornara insatisfeito.
No dia seguinte, procurou o monge e perguntou-lhe onde poderia descobrir diamantes.
 – Bem, respondeu-lhe o monge, se puder encontrar um rio correndo sobre areia branca, lá encontrará diamantes.
Ali Hafed vendeu sua fazenda, juntou todo o dinheiro que pôde, entregou a família aos cuidados de um vizinho e foi-se à procura de diamantes. Percorreu países do Oriente e do Ocidente, parando em todos os rios que corriam sobre areia branca. Mas nunca descobriu diamantes. Um dia, com a roupa em farrapos, infeliz, esfomeado, desesperado, jogou-se ao mar numa costa de Portugal para nunca mais reaparecer.
O homem que comprara a fazenda de Ali Hafed, cavando um dia num dos córregos da fazenda, notou um curioso raio de luz, apanhou a pedra que emitia a luz e colocou-a sobre uma mesa em sua casa sem lhe dar a menor atenção. Certo tempo depois, visitou-o aquele monge e, vendo a pedra, gritou:
- Diamante! Ali Hafed voltou?
- Não, respondeu o fazendeiro. E isso não é diamante. É uma pedra que encontrei lá no jardim.
- Mas eu conheço um diamante quando vejo um!
Era mesmo diamante. Mais do que isso, lá foi descoberta a maior mina de diamantes do mundo, de todos os tempos: a Golconda...
Se Ali Hafed tivesse ficado em casa e cavado seu próprio jardim...
Muitas vezes, no cotidiano, a história de Ali Hafed se repete. O ser humano – “criado à imagem e semelhança de Deus” – por toda a parte procura algo ou alguém que possa lhe dar a paz e a felicidade que tanto almeja. Perdido no meio do mundo, obcecado com tudo que o rodeia, esquece de olhar para dentro de si mesmo, para o âmago de seu ser. É lá, no sacrário da sua existência, que o Absoluto de Deus o espera... Só Ele pode oferecer a paz e a felicidade que o ser humano tanto deseja.
2 – Carwin
Por maiores que fossem as crises por que passei, nunca desci até o ateísmo, no verdadeiro sentido do termo, isto é, nunca cheguei a negar a existência de Deus. A impossibilidade de imaginar este grande e maravilhoso universo como obra do acaso é, a meu ver, o argumento principal que prova a existência de Deus. Refletindo, sou forçado a admitir uma causa primeira, um espírito inteligente, sob certos aspectos análogo ao do homem.


            3 – Rui Barbosa
            Tu ressurges, Senhor, todos os dias com a mesma periodicidade com que se    renovam os teus benefícios e as magnificências da tua alma.
Nega-te a nossa maldade.
Nega-te a nossa ignorância.
Nega-te o nosso saber.
            Mas de cada negação tu ressurges, deixando vazios os argumentos que te         negaram, como o túmulo onde dormiste outrora um momento para viver dentre          os mortos.
                                                                                                  

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